A dor de não se reconhecer na própria pele

Qualquer lançamento musical dos últimos dias foi eclipsado pela Adele (que estava com medo de ninguém ligar mais para as suas novas músicas, mal sabia), inclusive o primeiro áudio oficial da Sara Bareilles cantando She Used to Be Mine, uma das músicas que ela escreveu para o musical Waitress.

O vídeo de Hello da Adele, com aquela fotografia toda em sépia, com toda cor sugada dali, introduz um álbum que vai falar dela (não dela e outro cara, sabe?). E nele, fazendo uso do imaginário de um relacionamento (dela com ela mesma), a britânica canta “I’m in California dreaming about who we used to be“.

Aí Sara vem e me posta agorinha no Facebook: “And Adele… Oh thank goodness for you.” Como não amar essas mulheres?
Aí Sara vem e me posta agorinha no Facebook: “And Adele… Oh thank goodness for you.” Como não amar essas mulheres?

No clipe da Sara, em preto e branco, o ponto alto é “she is gone but she used to be mine“. A canção faz parte do clímax do musical composto por ela, e Sara trata das emoções do tema de um relacionamento abusivo com uma sensibilidade que suspeito que poucas compositoras seriam capazes de copiar.

Em uma das estrofes, Sara traduz o sentimento da personagem principal com essas palavras: “Não foi por isso que eu pedi. Às vezes a vida só desliza pela porta de trás, e esculpe uma pessoa, faz você acreditar que é tudo verdade. Agora eu tenho você, e você não é o que eu pedi. Se eu for honesta, sei que daria tudo de volta por uma chance de começar de novo e reescrever um final ou dois para a menina que eu conhecia”.

Só escutar essas palavras na interpretação da Sara já me parte o coração. Jessie Mueller é quem interpreta a personagem principal em Waitress (baseado no filme de 2008 de mesmo nome) e por mais que tenha ganho o Tony de melhor atriz no ano passado, pelo trechinho que ouvi em uma reportagem, nem ela consegue transparecer tanta segurança unida à fragilidade em cena quanto a Queen B versão Bareilles.

Jessie Mueller pedindo pra Deus me levar de volta pra Boston pra assistir Waitress.
Jessie Mueller pedindo pra Deus me levar de volta pra Boston pra assistir Waitress.

E entre o lançamento desses vídeos, eis que ocorre o Enem. Em meio a piadas espirituosas sobre as questões e discussões sobre a validade das risadas às custas dos atrasados, o MEC divulga o tema da redação: a persistência da violência contra a mulher no Brasil.

Em apenas um dia, muito já se discutiu sobre o significado dessa escolha. Ainda mais inserida em uma semana em que decisões no Congresso esquentaram a discussão pública sobre o assunto, e na qual uma menina de 12 anos é o alvo de comentários com teor sexual. (Vale buscar por #primeiroassédio no Twitter.)

E com tanta gente querendo inserir interesses políticos e ideológicos na decisão do tema da redação de uma prova feita por mais de 7 milhões de brasileiros, e comentada não só pela mídia como em várias casas e grupos nos quais um membro realizou a prova, em última instância minha conclusão é essa: não importa. O que a gente precisa é escutar a essas mulheres. Nas vozes da Adele, da Sara, e mais importante ainda, na delas mesmas.

*Escrito em 26 de outubro de 2015

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Um comentário sobre “A dor de não se reconhecer na própria pele

  1. Amei o novo álbum da Adele e também o da Sara, artista que acompanho desde 2008. Sou completamente fascinada pelo trabalho da Sara, por ser totalmente autoral e sensível. Em “Brave” ela também aborda essa questão de dar voz a quem está invisibilizado por algum motivo. Gostei da relação que você traçou entre a violência à mulher e o trabalho dessas duas cantoras.

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