De expressões e de amor, com “take me to church”

igreja

Sabe aquela situação que te incomoda de primeira e você deixa pra lá, pensando que vai passar, mas é claro que não passa e te irrita mais ainda a cada vez que se repete? Uma bem constante, ainda mais em época de The Voice, é a tal da ideia de “take me to church”.

Comecemos do começo. Devem existir cotas em reality shows musicais para candidatos que: 1 – tiveram uma grande perda na família e superaram através da música; 2 – foram alvo de bullying na infância e superaram através da música; 3 – sofreram com alguma doença e superaram através da música; e claro, 4 – os que começaram na igreja. Se for para colocar esses dados em um gráfico de pizza, o último desses perfis ocupará a maioria dos pedaços.

Encurtando o caso, adotando um sistema religioso não tão conservador quanto o Catolicismo romano na época, o rei Henrique VIII declarou o Anglicanismo, vertente do Protestantismo, como expressão de fé dominante na Inglaterra no século XVI. Quando os ingleses colonizaram o que hoje são os Estados Unidos, foi sob esses moldes que a sociedade foi construída, o que torna historicamente compreensível a grande parcela de artistas no país que começaram-na-igreja.

No âmbito sonoro, pense em Happy Day. Quem é que nunca ouviu “Oh, happy day/ when Jesus washed my sins away”? Esse é o básico da atmosfera cultivada nas igrejas – principalmente sulistas – norte-americanas: dramática e grandiosa, bem no estilo rhythm and blues, que remete a uma elevação do espírito ao privilegiar o aspecto quase imaterial da canção, que cria uma experiência arrebatadora (não a do fim do mundo, mas a que cativa os sentidos).

Entendo o elogio contido em dizer que a performance do candidato levou o público à igreja, trouxe a igreja ao palco, ou qualquer que seja a tradução escolhida. Nada contra esse tipo de apresentação, até tenho amigos que são. A questão é que encaro minha fé e minha experiência com igreja de um modo tão (e às vezes até mais) racional quanto emocional, e o problema pra mim não é que o termo seja sem sentido, mas sim que não tenha o sentido certo.

A faixa Take me to church, do álbum de estreia do irlandês Hozier, fala sobre um relacionamento no qual a veneração à outra parte causa sofrimentos e exige sacrifícios que, apesar das promessas, nem sempre trazem uma boa recompensa. Também entendo a associação desse tipo de relacionamento à igreja. O problema nesse contexto não é o uso da expressão, mas que algumas igrejas a justifiquem.

Igreja, do jeito que é para ser no evangelho, não se resume às experiências emocionais – frustradas ou arrebatadoras – vividas em um templo. Igreja é o Corpo de Cristo, e todo aquele que reconhece seu sacrifício e obedece seus mandamentos faz parte desse corpo, sendo portanto também igreja. Eu sou igreja. Com mãos para tocar, olhos para me compadecer, pés para seguir, um coração para sentir, mente para pensar e sem paredes para me limitar.

Por ser feita de gente, igreja às vezes erra, porque gente erra. E erramos muito, e muito feio. Mas se tem uma coisa na qual Jesus é mestre, é em nos pegar pela mão, apontar nosso erro, e mostrar um caminho bem melhor. Não é um processo muito fácil, mas ele faz tudo com tanto amor que fica mesmo irresistível.

Jogadas políticas, a beleza do espetáculo emocional ou relacionamentos disfuncionais perdem um pouco o sentido se comparados à simplicidade desse amor. Em meio a tantas opções, é a ele que prefiro me apegar. É só ele que dá sentido a tudo. E mais bonito, impossível.

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