Então, a morte

Parece ser mais fácil pensar na morte em um cenário no qual ela chega na mesma hora pra todo mundo. E se uma bomba for disparada e em segundos matar a todos que a gente conhece? E se o Sol tiver data certa para explodir e dizimar toda forma de vida na Terra? E se uma epidemia sem cura atingir a população e ninguém conseguir escapar da morte certeira em 72 horas?

Como sempre escuto minha mãe dizer, a única certeza dessa vida é a morte. E ela chega pra todos, independente de ser em eventos coletivos – e mais provável que não. Pensar no nosso último suspiro individualmente é dessas coisas que não chega nem perto de ser a melhor perspectiva do mundo, mas que pode nos ajudar a viver melhor.

Apocalipse zumbi, um dos cenários mais comuns por esses dias.
Apocalipse zumbi, um dos cenários mais comuns por esses dias.

Se casos amorosos dominam a maior parte das narrativas das canções por esse mundo afora, eles ainda deixam espaço pra falar desse fim derradeiro. Love at the End do John Mark McMillan, End of the World da Ingrid Michaelson, It’s so Hard to Say Goodbye to Yesterday do Jason Mraz, as várias composições de adeus do Maroon 5 e muitas outras músicas ilustram essa ideia da partida final e de tudo que ela envolve a partir das mais variadas lentes. Detesto ter que escolher uma preferida, mas gosto bastante desses versos:

“Talvez a morte não use roupa preta nem um machado malvado.
Talvez Machado seja de Assis.
Talvez a morte não tenha cara feia, ela só não é extrovertida.
Talvez a morte não esteja com frio, ela só não curta biquíni,
E com roupa de banho ninuém nunca a viu.
Eu sei que essas coisas não se diz a uma mãe.”
Coisas de Escolinha – Simonami

Ontem me perguntaram quais seriam os flashes que passariam pela minha mente nos meus últimos momentos de vida. Depois de um pouquinho de tempo longe de tudo que é familiar, num tipo de morte geográfica, não demorei muito para perceber que o filme não seria composto por momentos de adrenalina, plot twists, conquistas marcantes ou algo do tipo. Seria mais um curta conceitual com imagens de abraços, sorrisos, comidas, lágrimas, sonos e outros pequenos detalhes que marcam as minhas relações mais significantes com as pessoas.

Sempre torci o nariz para O Pequeno Príncipe, com esse tipo de ideia de que “tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”, mas depois da leitura, preciso admitir a beleza da simplicidade de “o essencial é invisível aos olhos”. O que importa de verdade no fim das contas é aquilo que a gente cultiva em relacionamentos. O que faz alguém deixar de ser só mais um dos mais de 8 bilhões de seres humanos existentes nesse mundo para se tornar uma daquelas pessoas cujo o consolo é uma das últimas cenas que a gente assiste nesse filme da nossa vida que é hipoteticamente exibido antes da morte.

“Tell the reaper, tell the repo man I’ve got nothing that belongs to him (…) I found love at the end of the world” Love at the End – John Mark McMillan
“Tell the reaper, tell the repo man
I’ve got nothing that belongs to him (…)
I found love at the end of the world”
Love at the End – John Mark McMillan

Com o tipo de amor que tira todo medo, não me preocupo mais com a morte em si, mas ainda fico apreensiva sobre o modo como ela pode chegar. Não faço ideia se ela virá daqui muitas décadas ou poucas horas, mas é certo que ela vem. E espero mesmo não ter nenhum arrependimento quanto aos relacionamentos e o significado das pessoas que marcaram esses meus dias contados.

A gente passa um tempo bem maior que o saudável buscando conquistas, dinheiro, reconhecimento, títulos, posses e tudo o mais que não vale de nada quando a gente se vai, e espero me lembrar mais constantemente disso. Também espero não cair na armadilha de tirar proveito, mas que eu aproveite mais as pessoas, já que são elas e o que elas proporcionam em relacionamentos que fazem os dias nesse mundo – independente de quantos sejam até o fim chegar – valerem tanto a pena.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s