O cortejo fúnebre de Simonami

Há tempo de nascer e tempo de morrer. E depois disso tem o tempo de luto. Após os momentos de negação e de lamentações, é chegada a missa de sétimo dia de Simonami.

Mas quem é Simonami?, você me pergunta. Uma banda de Curitiba, eu respondo, que traz nas letras um pouco de solidão e machucados, mas com um sorriso de esperança no rosto. E nas melodias, embala uma mistura de dor e delicadeza, para combinar com quem, mesmo em um mundo às vezes tão frio e vazio, ainda encontra razões para ser feliz. E, desde 31 de dezembro de 2015, banda de Curitiba que não existe mais.

Eu sei, eu sei, eu sei que as músicas do grupo, resultantes de dois EPs (EP (2011) e Então  Morramos (2013), disponibilizados gratuitamente) vão continuar aí para sempre. O fim da história deles não vai fazer com que uma ou outra canção deixe de aparecer na minha cabeça pra me acompanhar durante o dia ou que elas parem de fazer parte das playlists que faço para os amigos. Mas as circunstâncias, ah, elas são apenas tristes.

simonami-papel

No anúncio do fim da banda, o que mais marca é a gratidão, a Deus e ao mundo, pela jornada trilhada e compartilhada durante esses seis anos. E essa trajetória é linda. A razão da beleza está nisso aqui: “compramos tudo na promoção, brigamos com Deus, fazemos as pazes, brigamos de novo, brigamos entre nós, queremos nos matar, fazemos as pazes, nos amamos intensamente de novo, como vocês todos em todos os relacionamentos”. É a vida como ela é. Na saúde e na doença, na alegria e na tristeza e tudo mais.

A sinceridade nas composições e no modo como elas são entregues é que conquistam em Simonami. Parte disso pode ter vindo da liberdade de não estar presa a um contrato com uma grande gravadora; e talvez se tivesse um contrato com uma grande gravadora a banda não teria acabado – mas, por outro lado, talvez também não fosse a mesma.

Num nível pessoal, o que mais me toca no fim do grupo é que era um bando de cristãos falando da vida inteira – até das partes não tão bonitas assim – de um jeito cristão sem se enquadrarem no formato gospel. E música muito boa era feita ali. Não “música cristã” muito boa. Só música boa mesmo. E é disso que sinto falta. Cristãos produzindo e abordando toda e qualquer coisa dessa vida a partir de uma perspectiva cristã. Quando isso é feito, rótulos não são necessários (muito menos o duvidoso selo “gospel” de qualidade).

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Um tempo atrás cheguei até a mandar pra Ultimato a indicação de Simonami para o “Boto Fé”. E, apesar do fim, continuo mesmo botando fé nisso. Nas produções que a banda deixou, nos futuros projetos dos ex-integrantes, e, principalmente, nos outros Simonamis que vão surgir por aí. Mais gente que entenda que a vida cristã é muito mais que jargões. Gente que vive plenamente e coloca isso em canções. E que tenha jornadas lindas, sem ter que acabar porque, no grande plano das coisas, ainda não somos muito bons nesse negócio de viver ser rótulos.

O que consola nesse sétimo dia em que Simonami então morreu, é que foi ótimo enquanto durou. E foi exatamente o que tinha que ser.

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