Sitcoms e a beleza da vida comum

Em 22 minutos talvez a gente consiga dar um pulo na padaria para comprar um pote de manteiga, que acabou e ninguém avisou; aproveite para dar uma geral no quarto e finalmente guarde os enfeites de Natal no seu devido lugar; ou lembre de procurar pelas agendas de papel o telefone daquele encanador ótimo que você indicou para sua tia. Ou talvez, nesses 22 minutos, a gente assista a um sitcom.

Os sitcoms, as comédias situacionais, começaram a tomar forma na televisão na década de 50 nos Estados Unidos, principalmente com I Love Lucy, que girava em torno da vida familiar de uma dona de casa que queria se tornar artista. Episódio após episódio as situações comuns da vida da protagonista eram exageradas no roteiro, em uma fórmula sustentada (em circunstâncias e nuances diferentes) até hoje.

Até os anos 90, o mais comum era que os sitcoms fossem de alguma forma focados em uma família (A Feiticeira, ALF, Um amor de família), ou em um grupo ligado pelo trabalho (Agente 86, M*A*S*H, Cheers).  Então, quase uma unanimidade, Friends passou a ser o maior ícone no imaginário das comédias mais recentes, e um pouquinho anterior a ela, Seinfeld já liderava a audiência norte-americana, chegando a ser considerado o melhor programa de todos os tempos. As duas séries juntas fortaleceram a terceira vertente nas comédias, aquelas lideradas por um grupo de amigos.

Como eu amava chegar da escola e assistir A Feiticeira!
Como eu amava chegar da escola e assistir A Feiticeira!

Um dos momentos mais marcantes na minha trajetória no submundo dos seriados foi assistir o reencontro de Barney com o pai em How I Met Your Mother. Crescendo sem a figura paterna, Barney imagina os rumos mirabolantes que a vida do pai poderia ter tomado (um apresentador de tv?), e fica decepcionado quando o encontra vivendo no subúrbio de Nova York com a esposa e filho. “Se fosse para você ser um simples pai suburbano, por que você não pôde ser isso para mim?”.

Mesmo com uma narrativa centrada no grupo de amigos em volta da mesa cativa no MacLaren’s, algo que percebi depois do fim de HIMYM foi como os momentos mais tocantes da série para mim – em uma comédia que sabia construir clímax como pouquíssimas – foram aqueles relacionados à família. (Não vou listá-los para não tirar a graça de quem ainda não assistiu. E se você não viu ainda, mesmo que tenha ouvido alguém reclamar do final, veja!)

Sempre tive meus pais presentes, e por mais que não me identificasse pessoalmente com Barney nesse aspecto, assistir esse seu desabafo me ajudou a entender um pouquinho como deve ser crescer sem um deles, principalmente por conta do abandono. As situações comuns do ambiente de trabalho, das conquistas amorosas e dos círculos de amizade retratadas com humor podem render boas risadas, mas parece que sua carga é exponenciada quando chegam perto da dinâmica familiar, de onde vêm as nossas bases de relacionamento.

barney-dad

 

Com tantos bons sitcoms hoje, é ate difícil que Modern Family volte a figurar em premiações, mas a série não falha em me fazer gargalhar, rir de verdade mesmo. Arrested Development, minha comédia preferida, e uma das únicas que consigo reprisar sem sentir que estou perdendo tempo, também tem uma família como tema (“Now the story of a wealthy family who lost everything and the one son who had no choice but to keep them all together”), e pelo tom da série, as minhas reações são risadas do tipo “uhm, eu percebi o que vocês fizeram aí”. E não me entendam mal, pelo que o roteiro se propõe, isso é maravilhoso. Mas gargalhar audivelmente, de verdade mesmo, é com Modern Family.

A graça do dia-a-dia nos núcleos Pritchett-Dunphy é tão simples que é quase a definição pura das comédias situacionais. É o comum. Até as situações mais inimagináveis apresentadas na série se encaixam naquela descrição de “se eu contar, ninguém acredita”, que todo mundo preenche com algumas de suas próprias situações inimagináveis (geralmente engraçadas, mesmo que quase trágicas).

E se consigo gargalhar com um falso documentário sobre uma família, e encontrar beleza na dificuldade em reunir todo mundo para uma foto, na dificuldade em preparar um jantar para a esposa, na dificuldade em lidar com um animal de estimação em casa quando não se deseja um e em tudo mais, por que não encontrar a mesma beleza na minha família e nas dificuldades do nosso dia-a-dia?

Rir das desventuras alheias: o coração de qualquer comédia.
Rir das desventuras alheias: o coração de qualquer comédia.

Tudo bem que talvez alguns personagens das nossas famílias não sejam tão carismáticos aos nossos olhos como até o rabugento Jay (Ed O’Neill, também o cabeça da ácida Um Amor de Família) consegue ser. E diferente dos amigos e até dos colegas de trabalho, que podemos escolher, quando o grupo em questão é a família, estamos ligados a eles querendo ou não.

E então, mesmo quando nossa pedida para os 22 minutos for assistir a um sitcom, mas a vida familiar real, simples e comum, fizer com que eles sejam gastos indo à padaria para comprar um pote de manteiga, que acabou e ninguém avisou; dando uma geral no quarto e finalmente guardando os enfeites de Natal; ou procurando pelas agendas o telefone de um encanador para a tia, a gente ainda assim pode escolher ver a beleza, todo dia.

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