Um convite para amar UnREAL

Dando uma olhada no padrão das séries que acompanho, posso afirmar que prefiro ser surpreendida com produções inicialmente subestimadas do que apostar todas as minhas fichas (e meu tempo) naquelas que são assinadas por produtores renomados, com elenco hollywoodiano e campanha de marketing de dar inveja.

Uma das maiores surpresas a ser incluída na minha lista em 2015 foi UnREAL, que figurou em vários rankings de melhores produções do ano, e não por acaso. Dá pra resumir sua premissa no simples “caos dos bastidores da produção de um reality show”, que, na verdade, de simples não tem nada. Uma série roteirizada sobre realities é tudo o que eu nem sabia que sempre quis assistir!

Se alguém por aí ainda não acompanha a série, aqui vão alguns pontos pelos quais UnREAL merece um minuto (ou algumas horas de maratona) de atenção:

Everlasting – a série gira em torno dos bastidores do fictício reality show Everlasting, que segue os moldes de The Bachelor, franquia de dating-show que já conta com 20 temporadas e mais 15 de spin-offs. Quem melhor para escrever sobre esse universo do que alguém que esteve nos bastidores de The Bachelor? Sarah Gertrude Shapiro, criadora e roteirista de UnREAL, foi produtora do programa em seus anos iniciais, entre 2002 e 2004. Segundo ela, sua saída foi por motivos morais. Shapiro sentia-se mal fazer com os participantes o que retrata Rachel (Shiri Appleby) e Quinn (Constance Zimmer) perpetuando na série. (Assisto The Bachelor há quatro anos e devo dizer que o visível esforço dos produtores do programa é tanto louvável quanto sofrível.)

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As protagonistas – Rachel, uma das produtoras de Everlasting, é a protagonista dessa trama, seguida por Quinn, a diretora. Já famoso no cinema, o teste Bechdel propõe olhar para uma obra fazendo as seguintes perguntas: “Há mais de uma mulher com falas? Essas mulheres conversam entre si? O assunto da conversa é algo além de um homem?”. É mais fácil conseguir responder positivamente em seriados, já que os roteiristas têm uma liberdade – e certamente um tempo – maior para explorar mais ângulos da história, e UnREAL é aprovada no teste com folga.

Em 2013, o jornalista Brett Martin lançou o livro Homens Difíceis, no qual entrevista produtores, showrunners e personalidades para explicitar suas decisões, propostas e jogadas de sorte na criação de histórias mais complexas, com personagens multifacetados e politicamente incorretos em séries como Breaking Bad, Sopranos, Mad Men, Dexter e The Wire. Já é hora dessa fórmula de complexidade que nos prendeu a Walter White, Don Draper, Tony Soprano e tantos outros “homens difíceis” também ser dedicada a uma longa lista de mulheres.

Elenco – Shiri Appleby e Constance Zimmer nem precisam roubar a cena, uma vez que ela já é toda delas. Mas a força de Rachel e Quinn é elevada à enésima potência por conta das atrizes. Com um histórico não muito cativante (Life UneXpected: por quê??), sempre que via Appleby na tela, meu pensamento era “alguém dê um bom papel pra ela, por favor”. Minhas preces foram atendidas e a garota não decepcionou. Já Zimmer, que havia testado as águas da persona “profissional da mídia com um compasso moral maleável” nas participações em House of Cards e The Newsroom, dá à Quinn toda confiança e ar de experiência necessários para que a gente quase não acredite em suas escolhas, mas ao mesmo tempo as entenda, porque, afinal de contas, ela sabe o que está fazendo. Não é?

Sátira dos estereótipos – É um reality show, gente. Tem a queridinha de todos, a vilã, a barraqueira, a zebra, a participante que só está ali para virar sub-subcelebridade, e tantos outros perfis no máximo bidimensionais nos quais a edição do programa classifica os participantes. UnREAL faz uso da construção dos estereótipos para ser honesta com seu público. Lidar com isso não apenas reforçando ou zombando, mas satirizando, é o tempero que nem faltava na série. Dá vontade de assistir Everlasting na íntegra (mas então The Bachelor está aí para isso).

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Lifetime – Também do canal, Devious Maids chamou certa atenção em sua temporada de estreia eDrop Dead Diva foi queridinha de muitos, mas a casa de UnREAL está longe de figurar entre as emissoras facilmente associados a conteúdo de qualidade. Em busca de uma tv cada vez melhor, é ótimo não ter apenas um grupo seleto produzindo séries dignas de aplauso. Faz tempo que HBO não está mais sozinha, com Showtime e FX na cola, e mais recentemente, AMC e Starz. Quanto mais canais entrarem para essa lista (mesmo que a passos lentos), melhor.

Dez episódios – A tendência de canais a cabo (Netflix, Amazon e Hulu inclusos) é apresentar menos episódios por temporada. A máxima “menos é mais” vale muito aqui (por motivos que valem uma reflexão própria). E por mais que eu ame ter mil episódios das séries que acompanho, sejamos sinceros, minhas horas de sono agradecem pelas maratonas menores. Dá pra ficar por dentro das maravilhas dos bastidores de Everlasting em sete-míseras-horas. Nem dói na agenda.

Cenas dos próximos capítulos – Shapiro disse que, nas apostas para a segunda temporada, podemos “imaginar a Rachel com bem mais dinheiro e bem mais poder”. Sim! Na hora de escrever os roteiros, segundo ela, a equipe pensa em como serão as histórias de Rachel e Quinn, e então fazem com que todas as outras coisas funcionem ao redor disso. Siiiim! E algo que vai funcionar ao redor será ter um bachelor negro e com isso levantar questões de raça. Não sei se muita gente está familiarizada com os tabus de The Bachelor, mas acho que já dá para adivinhar que esse é um grande siiiiiiiiim! Espero que a série tenha temporadas suficientes para uma versão de Everlasting nos moldes de The Bachelorette, com uma mulher no centro. Por favor, por favor!

Com esses argumentos na mesa, UnREAL volta lá pra junho, e não importa se sua escolha for assistir agora e esperar até lá, ou deixar para começar no meio do ano para emendar com o retorno de uma vez. O que conta é: acompanhe essa maravilha.

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