Up e a beleza de estar errada

Onde já se viu pagar 29 reais por um ingresso de cinema? Não deu, não quis compactuar com essa afronta. Por isso quando chegou a hora de escolher o filme do Cineclube da Liga desse mês, acabei decidindo fazer a primeira edição na qual a gente não iria ao cinema, mas assistiria a um filme já fora do circuito. Aproveitando o motivo do feriado, nos reunimos para ver Up – Altas Aventuras no Dia das Crianças.

Não sou muito chegada a animações, e tirando o dia em que revi Anastasia esse ano, a última vez em que separei um tempo pra ver desenhos ganhando vida foi com Frozen – Uma Aventura Congelante. Foi numa sessão de pré-estreia e eu subestimei de verdade, de verdade mesmo, o poder de afetação de Let it Go. (Após escrever esse parágrafo, me lembrei que não, também fui ao cinema assistirDivertidamente. Começo a duvidar da minha falta de apreço por animações e – mais preocupante ainda – da confiabilidade da minha memória.)

Princesa preferida, fala sério, parabéns Fox!
Princesa preferida, fala sério, parabéns Fox!

Se tem algo que eu amo é refletir sobre produtos culturais. E a explicação pra isso pode ser resumida no que a Alissa Wilkinson, chefe da seção Movies and TV da Christianity Today, diz na assinatura de sua coluna: “Como nós assistimos importa tanto quanto o que assistimos. TV e cinema são mais do que entretenimento: eles nos ensinam como viver e como amar uns aos outros, para melhor ou pior. E eles tanto espelham quanto moldam nossa cultura”.

O alto preço dos ingressos de cinema no feriado aliados ao meu quase desdém por animações me fez não esperar muito da discussão sobre Up – e até mesmo do filme em si. Mas algo que amo ainda mais que reflexões é ser surpreendida quando minhas expectativas são baixas. Tem cenário melhor pra se estar errada?

A vida a dois de Carl e Ellie (a fofura do companheirismo nos opostos), a inocência infantil (paradoxalmente adorável e irritante) do Russell, as piadas aos montes (com excelentes sacadas), a trilha sonora envolvente (com seu tema lindo e variações no ponto), a mise-en-cene incrivelmente contrastante (tão lúdica e tão sóbria), e outros méritos do filme já seriam suficientes para ter feito meu feriado valer a pena.

Cenas de abertura mais fofinhas da vida!
Cenas de abertura mais fofinhas da vida!

Mas eis que na discussão, um nó que eu tinha dado na minha cabeça e na vida toda nesses últimos dias foi sendo desfeito. Ellie sempre quis ir ao Paraíso das Cachoeiras, e morre sem nunca viajar pra lá. Carl então decide partir rumo ao sonho da esposa – com sua casa e os balões. Depois de muitos infortúnios, ele consegue alcançar o ponto exato idealizado pela companheira, mas sem satisfação alguma. Porque, no fim das contas, o que faz tudo valer a pena é a aventura.

Andei perdendo tempo demais me preocupando com o que quero alcançar. E até tentando decidir o que quero alcançar. O que fazer depois de alcançar.  Pensando em como resultados demoram tanto para me dizer se alcancei ou não o que quero alcançar. E isso vem me tirando o mais importante de tudo: o prazer da jornada.

De que adianta conseguir tudo que venho planejando, se quando as conquistas vierem forem vazias de significado? Carl entendeu isso e foi atrás de Russell, Dug e Kelvin, seus companheiros na aventura, para dar sentido a tudo aquilo. Acho que ainda não é muito tarde pra que eu dê mais sentido às minhas aventuras também.

É. Só não dá pra tirarem a graça da realidade.É. Só não dá pra tirarem a graça da realidade.
É. Só não dá pra tirarem a graça da realidade.É. Só não dá pra tirarem a graça da realidade.

No fundo, acho que eu sempre soube disso, mas precisava de um filme bonitinho, um argumento bem fundamentado e várias conversas com amigos para me chacoalhar e passar a ver o ponto de um jeito mais claro: as conquistas não são o fim da jornada. Se forem, não tem graça nenhuma. Elas podem ser marcos, motivadores, mas não podem tirar o brilho das nossas relações que estão lá antes e que vão permanecer depois, das  nossas aventuras de todo dia.

Não sei o que me espera no ano que vem. Tudo depende de muito do que quero alcançar ainda esse ano. E nem sei se vou alcançar essas coisas todas. Estou cada dia mais parecida com Jon Snow, não sei de nadinha. Só sei que quero ter motivos para comemorar se elas chegarem. Quero que elas façam sentido. Só não mais sentido do que ser feliz todo dia. Valeu, Up. Valeu, Cineclube.

*Escrito em 16 de outubro de 2015

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