A Festa de Vanessa

 

Alegria, para tocar a batucada/ as morenas vem sambar/ quem samba tem alegria/ Minha gente que era triste amargurada/ inventou a batucada para deixar de padecer/ Salve o Prazer! Salve o Prazer!!

A música Alegria, de Vanessa da Mata, começa com um ótimo exemplo do que é ser “brasileiro” ¹. Sambamente animada a canção revela a força do poder criativo de nossa cultura. Trata-se do nosso “jeitinho”² que tem o poder de germinar sorrisos nos áridos solos da tristeza. Em meio a nossas crises pessoais e injustiças sociais conseguimos encontrar beleza, riso e comunhão. A “morena sarará” canta o poder terapêutico da festividade, uma graça comum, vinda de Deus, acessível a todos.

A festa toca no nosso coração por meio da arte, da interação com o próximo e da alegria. Para frios corações monocromáticos ela pode ser uma massagem cardíaca capaz de devolver o colorido à vida. Felicidade que brota num canto da existência para contagia-la por inteiro, festoterapia. Ela pode oferecer ânimo para que alguém seja estimulado a resolver problemas relacionais, financeiros ou de falta de inspiração.

Infelizmente, nós cristãos, tomados pelo medo e pela culpa, desaprendemos a festejar. É como se perante o problema da libertinagem, que rola nas festividades, nós preferimos jogar fora o bêbê e a agua suja juntos. Também temos sérias dificuldades de expressar alegria corporalmente (ainda mais eu, que além de crente tive uma adolescência metaleira e odiava dançar). Inclusive, um dia desses, repreenderam o Palhaço Zuringa por, simplesmente, rebolar. Devíamos todos praticar jogos de teatro para nos “soltar” um pouco. Além disso, reparar a mão de Deus nas festas e manifestações populares (folias, maracatu, samba de roda, cortejos etc) nos faria muito bem.

Afinal de contas, festa é uma coisa bíblica. Só no antigo testamento eles tinham 7 festas anuais, pois no Pentateuco Deus ensina a celebrar aquilo que se crê. Além disso, os judeus criaram o Purim, que hoje é uma festa infantil de alegria, quase um protótipo de carnaval. Essa festiva cultura também nos deu, mais recentemente, o klezmer, para alegria de toda a nação circense. Definitivamente, não sou a favor da restauração de todos os costumes judaicos, entretanto observar sua cultura é ótimo para questionarmos se não temos absolutizado certos costumes da subcultura evangélica, ou seja, agido com “etnocentrismo gospel”.

Esperando a felicidade/ para ver se eu vou melhorar/ vou cantando fingindo alegria/ Para a humanidade não me ver chorar…

Já na segunda parte da música (1:40) Vanessa deixa claro que a festa não resolve tudo. Na verdade quando a festa se transforma em fuga ela é um desastre. É a imagem da cabrocha se jogando no samba pra esquecer um problema que ela se recusa a encarar. Nessas horas Baco, deus do vinho, assume o altar e nos faz adora-lo obrigando-nos a esquecermos e subjugarmos todas as outras áreas da vida para que possamos festejar. A festa é entregue a cultura de consumo e ao nosso individualismo. Entretanto, nem essa euforia festeira consegue nos desligar das mazelas da vida. Afinal, é isso que o triste solo de violoncelo, que se encaixou tão bem num ritmo alegre, representa na canção. É o agonizante intervalo das músicas e das euforias, aquela fração de silêncio e solidão em meio à multidão, que faz com que os problemas da vida assaltem nossa mente.

Pois é, como diria Vinícius de Morais, “a vida é a arte do encontro”. A experiência egoísta da festa é a expressão máxima do desencontro da alma que só se interessa com suas sensações. A realização se dá quando a alegria festiva caminha junto com nosso relacionamento com o próximo, com as diversas esferas da vida e com nosso Deus, que age por meio de tudo, inclusive da festa.

 

 

¹http://www.ultimato.com.br/revista/artigos/347/o-ritmo-da-criacao

²http://www.ultimato.com.br/conteudo/carnavalizacao-da-criatividade#gabriele+greg

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