Nunca cancelei a assinatura de ninguém

Nunca cancelei assinatura de ninguém. Como daqui a alguns anos o Facebook pode sofrer com o ostracismo, ser desativado (como aconteceu com o Orkut depois de uma década de existência), e alguém, navegando despretensiosamente por essa internet, acabar caindo nesse texto e não fazer ideia do que esse tal cancelamento significa, vamos à parte didática.

Em 2015, o Facebook (“Feice”, para os íntimos) foi a rede social mais acessada no Brasil. Nela, você pode enviar solicitações de amizade para seus amigos, seus colegas, parentes, conhecidos, para os amigos de seus amigos, para gente que você nunca viu na vida, mas por quem você ficou interessado pela foto de perfil (alerta: duvide muito de quem faz isso – e mais importante: não seja uma pessoa que faz isso) e afins.

Uma vez que a solicitação de amizade é aceita, o que a pessoa posta passa a aparecer no seu feed, a página inicial na qual você visualiza as atualizações da resposta que todos os seus amigos (e também instituições, empresas, canais de entretenimento e por aí vai, mas vamos focar nos indivíduos) dão à pergunta “What’s on your mind?”, que o Facebook faz a todo mundo.

E aí chegamos ao cancelamento. Se você quiser que as atualizações de determinada pessoa não apareçam mais no seu feed, em dois ou três cliques você deixa de receber toda e qualquer piadinha /texto sentimentalista /insight político /foto do fim de semana em Angra/ reclamação inflamada/ notícia imperdível e tudo mais que por ela for compartilhado.

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Além disso, o Facebook cria uma bolha na qual as atualizações das pessoas com as quais você mais interage são privilegiadas e aparecem no topo. Você vai custar a ver as postagens daquela garota que estava na sua sala da pré-escola, de quem você nem lembrava o nome, mas que de alguma forma te encontrou por lá e que teve a solicitação aceita, mas com quem você nunca trocou uma mensagem.

Com a dupla infalível do cancelamento + bolha, o resultado é que no Facebook parece que o mundo todo tem um senso de humor igual ao seu, compartilha da mesma visão política que você, frequenta os mesmos tipos de eventos nos quais você vai, tem os mesmos assuntos sobre os quais reclamar e assim em diante.

E nesse cenário, no qual é muito fácil excluir o que é diferente ou o que não nos interessa, onde é que a gente exercita o respeito, a tolerância e as discussões pacíficas? Onde é que a gente tenta entender o posicionamento do outro quando ele não é igual ao nosso? Onde é que mesmo sendo contra (insira qualquer tópico polêmico aqui), consigo amar quem é a favor? Claro que não só no Facebook, mas como uma rede social que hospeda interações sociais, lá tem que ser lugar disso também.

Discussao facebook

É por isso que nunca cancelei assinatura de ninguém. “Prefiro cancelar logo a passar raiva lendo esse tipo de coisa”, alguns dizem. “Se eu continuar vendo esse tipo de posicionamento por aqui, vou cancelar, independente de quem seja”, ameaçam outros. Por minha vez, enquanto amo Castelo Rá-Tim-Bum, prefiro mesmo deixar que o comentário de alguém que considera que essa seja a pior produção da história da tevê brasileira apareça do que ceder à alternativa de silenciá-lo e viver em um mundo imaginário no qual todos são adoradores de Nino e companhia e seguem amando o que eu amo e odiando o que eu odeio.

Ah, e aquele argumento de “Se não gosta do que eu posto, é só me tirar do seu feed”? Tudo bem que “o perfil é meu e publico o que eu quiser”. O que não fica nada bem é não perceber a falta de amor e de consideração contidas aí. Devem existir alguns espécimes raros por esse mundo afora, mas eu não tenho notícia de ninguém que tenha mudado de opinião por conta de discussões na internet. Para o bem ou para o mal, a gente anda cada vez mais conectado, e precisamos aprender a lidar com essa realidade de um jeito saudável. Quando nos importamos com algo, isso vai mesmo estar pelos nossos perfis, nem adianta muito tentar esconder. Quando nos importamos com pessoas, empatia e paciência vão estar pelas nossas relações, mesmo que – e ainda mais quando – as ideias delas são tão opostas às nossas.

Lendo essas palavras em 2030, talvez você não saiba o que “cancelar a assinatura” signifique, mas com certeza sabe o quão egoístas, cegos, desrespeitosos, preconceituosos e intolerantes seres humanos podem ser. Sejam eles seus amigos, seus colegas, parentes, conhecidos, amigos de seus amigos, ou gente que você nunca viu na vida. Quem sabe até mesmo você. Sei que tenho que lutar para que não seja eu.

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