O adeus simples de quem é para sempre

O viver pleno contempla sonhos mil, grandes desejos por amores e edificações para fazer do nosso nome maior do que toda efemeridade do existir no tempo que se chama hoje. Ora, o que temos hoje enfim? O autor do Eclesiastes nos diria para comermos das delicias, amarmos o amor da mocidade, bebericar o que nos faz mais alegres e conversar, sim, sentar na roda de amigos queridos ou junto àquele que quer só dizer as palavras guardadas à tempos. Sábio é o que souber viver assim sem se desesperar pelas vaidades.

Que mistérios há nas palavras do homem simples que nos desnuda no falar de tudo para descobrir quem é o outro? Essa pergunta que nos vem quando assistimos filmes como Santo Forte (1999), O Fim e o Princípio (2006) e o belo Edifício Master (2002), quais são então os mistérios de Eduardo Coutinho!

Ousadia seria tentar esgotar toda a obra de Coutinho em um texto, um filme ou uma vida, suas inovações de linguagem no Globo Repórter ou em Jogo de Cena (2007), na televisão ou no cinema o interesse dele estava no outro, mas ironicamente o seu adeus se deu pelas mãos de um outro à quem ele deu seu amor. Faço menção da tragédia não para lembrar a dor, mas para lembrar o adeus, seu último trabalho, o filme finalizado por João Moreira Salles e que levou o nome Últimas Conversas (2015).

Um Coutinho ranzinza entrevista alguns adolescentes, mas como ele diz “preferia fazer com crianças”. A prepotência juvenil, a dor do abuso, a realidade do racismo, toda a complexidade de se crescer no Brasil de hoje é apresentada nas conversas em uma sala de aula do velhinho com os adolescentes e por fim, vem uma última entrevista com uma menininha que nos lembra do frescor da infância e faz o ranzinza falar: “tá vendo, por isso tínhamos que ter feito com crianças”.

Assim, com uma saudação cordial, doce e humana nos despedimos dele, um adeus regado à lembrança de seus edifícios que humanamente durarão para todo o sempre, toda sua obra nos faz ser gratos pelo homem que viveu para nos ensinar de pouquinho em pouquinho como viver, simples, como o autor do Eclesiastes disse: sem vaidades!

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