Das histórias que a gente já sabe o final

Lembro direitinho de uma aula de História no ensino médio em que a professora decidiu passar o filme Hotel Ruanda (2004) para a turma, ilustrando os eventos da guerra civil da Ruanda, que tínhamos estudado em sala. Antes da exibição, ela disse para mantermos em mente o fato de que os eventos dramatizados na tela poderiam não ser fiéis ao que aprendemos nos livros, já que seria bem mais fácil fixar as imagens do filme do que nos ater ao que foi estudado.

Algumas incoerências históricas são bem pontuais. É pouco provável, por exemplo, que o imperador persa Xerxes usasse adereços tão caricatos como os que Rodrigo Santoro veste em 300 (2006). E mais de mil soldados teriam se juntado aos guerreiros espartanos – que usavam armaduras de bronze e não apenas tiras de couro – para enfrentar os persas. Mas couro, piercings e o simbolismo dos 300 guerreiros serviam muito mais aos interesses épicos de Zack Snyder.

Xerxes
Mais Zack Snyder que isso, só sendo engolido por uma montanha de caveiras.

Após uma análise cena a cena, o site Information is Beautiful fez uma compilação da porcentagem de veracidade de alguns dos recentes filmes baseados em histórias reais. Entre eles, o mais fiel é A Grande Aposta (2015), com uma exatidão de 88,4%, e o menos ligado aos fatos históricos é O Jogo da Imitação (2014), com 37,5%. Talvez uma escolha mais sincera seja nomear alguns deles como “livremente inspirados”.

Em 17 de março, Ressurreição (2016), um filme centrado na investigação da ressurreição do Messias através da busca de um centurião cético (Joseph Fiennes) pelo corpo de Jesus, estreia nos cinemas. Independente das conclusões às quais o personagem chegar, já temos alguns registros do fim dessa história. Se o centurião vai deixar de ser cético (como acontece com muita gente que decide estudar o sumiço do corpo) ou não, fica por conta dos roteiristas, mas dá para saber que, se buscarem a maior porcentagem de veracidade possível, não vai haver nem sinal de um corpo morto.

Fora aquelas produções que se propõe a documentar fielmente o que é relatado na Bíblia – que têm um cunho quase pedagógico e não costumam ser sucessos cinematográficos -, não é raro que as dramatizações da narrativa bíblica apresentem pontos bastante controversos em relação ao texto original. Noé (2014) foi um dos casos mais recentes. Com um trailer que levou muitos cristãos ao cinema com a expectativa de ver a história presente em Gênesis se desenrolar na tela, o resultado final, que trouxe também influências do Alcorão e da cultura babilônica, fez com que seja quase impossível encontrar uma resenha do filme pela internet sem comentários de espectadores indignados.

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Um Noé muito louco, doidão.

É importante ter em mente que cinema e literatura (e também os registros históricos) são linguagens que favorecem elementos diferentes, a partir de estéticas diferentes. Aquela passagem que amamos no livro pode não trazer o mesmo impacto nas telas. Um detalhe que passou despercebido por nós nas páginas pode ser exponenciado por uma direção de arte brilhante.

Entre livros em primeira e terceira pessoa, invariavelmente prefiro os narrados em primeira. A personalidade impressa na forma do personagem me conduzir pela história acaba me ganhando bem mais que um narrador observador. Mas sempre me pego pensando “se essa história virar filme, como é que vão conseguir marcar essa personalidade na tela sem narrar todas as cenas?”. E é interessante perceber como isso acontece. Às vezes parece que estou assistindo a uma versão que não faz justiça alguma a um amigo que conheço bem. Em outras, parece que estou é descobrindo ainda mais camadas dele.

Se filmes já passam por um exame enorme de críticos por esse mundo afora, sendo analisados em vários aspectos técnicos e criativos, as adaptações ainda passam por mais um critério, analisadas em relação ao livro, peça, evento histórico, ou ao que quer que seja o material original. Além de ter que ser um bom filme, a produção precisa ser boa em relação àquilo em que se baseia, e isso passa tanto por preservar a essência da história primária quanto traduzi-la com eficiência para a nova linguagem.

Quando comecei a estudar Comunicação, mal sabia que existia todo um debate acadêmico entre as áreas de Jornalismo e História sobre como reportar os eventos passados objetivamente. Ler uma notícia sobre um fato e ler o mesmo fato em um livro didático são apreensões bastante diferentes, certo? Um boletim de ocorrência sobre o mesmo fato, registrado em uma delegacia, também será diferente. Da mesma forma que um filme sobre esse fato será outra experiência diferente. Não imagino os debates acerca desse tema acabando algum dia, mas quando se fala de arte, prefiro não privar a liberdade criativa de quem produz, e problematizar a forma como o passado é retratado.

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Spoiler: Draco Malfoy sofrerá em Ressurreição!

Adoramos ver produções que retratam os grupos – sociais, políticos, culturais – dos quais fazemos parte, ainda mais quando a abordagem é a partir de uma ótica positiva. É como se as obras estivessem afirmando a importância e validando aqueles aspectos da nossa vida. Já reparou no tanto que vêm se falando sobre representatividade nos produtos culturais hoje em dia? Não é por acaso.

Quando histórias que envolvem a fé são retratadas, é comum que as reações sejam inflamadas. É a partir da nossa profissão de fé (ou mesmo a falta dela) que baseamos respostas para algumas das nossas maiores perguntas – o sentido da vida, de onde viemos, para onde vamos e por aí vai – fazendo dela nosso maior pilar. Quando tentam mexer nele, é difícil não nos armarmos, seja para defesa ou ataque.

Então, ao assistir Ressurreição – ou qualquer outra obra artística baseada (ou livremente inspirada) na narrativa bíblica -, é bom manter em mente o fato de que os eventos dramatizados na tela podem não ser fiéis ao que aprendemos nos livros. E, como cristãos, o que primeiramente precisamos é aprender nos livros, nos 66 que Deus nos deixou. Assim, nosso pilar não é facilmente balançado, e aquele maior mandamento, o amor, vira nossa resposta imediata.

 

PS 1: Quer um estudo sobre fatos históricos e adaptações cinematográficas?
O capítulo “Os historiadores e o cinema”, do livro “História: Introdução ao Ensino e à Prática”, de Peter Lambert e Phillipp Schofield é uma boa fonte.

PS 2: Quer um estudo sobre as hipóteses para o sumiço do corpo de Jesus?
O capítulo “A Ressurreição de Cristo”, do livro “Cristianismo Básico”, de John Stott é uma boa fonte.

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