Quando heróis fazem política melhor que a gente

Batman vs Superman: A Origem da Liga da Justiça estreia ainda em março, Capitão América: Guerra Civil chega logo mais em abril, e X-Men: Apocalipse vem na sequência, em maio. Em todo filme do gênero, uma das premissas básicas é que o espectador fique de um lado: o dos heróis, que lutam contra as forças do mal. Mas esses três lançamentos trazem uma perspectiva diferente, com a proposta inicial de escolher um lado entre os próprios heróis.

Se levanto a bandeira do Capitão América, por exemplo, logo estou contra o posicionamento do Homem de Ferro, herói que muitos outros escolheram. Os partidários de Tony Stark elencam seus motivos para serem contrários à postura de Steve Rogers e vice-versa. Ou você apoia a lei de registro de super-humanos ou se opõe à ela. É polarizado assim.

No cenário político brasileiro, vamos seguindo os mesmos moldes hoje. Elegemos nossos heróis, aqueles que personificam os ideais nos quais acreditamos. E já que é tudo tão polarizado, também nomeamos os carinhas maus, os do outro lado. Afinal de contas, ninguém vira herói de verdade se não combate vilões. Nesse ringue, os heróis de um são os vilões do outro. Tudo depende da perspectiva.

Kim power rangers
Aula inaugural de “Como não fazer analogias políticas com produtos culturais”, por Kim K.

Em narrativas melodramáticas, pouco importa quem sejam os personagens; importa é que eles sirvam aos moldes pré-estabelecidos. “Olha só, se a gente pegar tal ângulo, esse cara daria um ótimo vilão!”, grita um editor. “Três opções de mocinhos pra você saindo agora! É só escolher”, replica um produtor. A história esfria e mudamos os personagens, mas os problemas estruturais continuam os mesmos.

Enquanto fixamos nossa atenção nos protagonistas da vez, outros tantos sujeitos – citados em delações, investigados por enriquecimento ilícito, os que incitam discursos de ódio, que protagonizam manobras de favorecimentos… é só nomear –  respiram um pouquinho mais aliviados, já que os holofotes foram redirecionados.

Há tempos parece que nessa redemocratização do país as figuras entram no jogo político para usufruir do poder em prol de seus interesses pessoais, bem longe do ideal de bem comum. E nem adianta culpar só “o pessoal de Brasília”, porque a culpa é de cada um sempre que reforçamos a cultura do jeitinho brasileiro para tirar vantagem. Talvez o que nos impeça de roubar milhões é apenas o fato de não termos acesso a milhões. Se tivéssemos, roubaríamos com a mesma flexibilidade moral com que fazemos carteirinhas de estudante falsas, por exemplo?

guerra-civil
#TeamCap ou #TeamIron?

O que o cristianismo propõe é que nossas práticas em sociedade sirvam como manifestações da cultura do Reino. Alguns oram para que Deus traga luz à mente daqueles cristãos que ainda não foram esclarecidos politicamente, para que todos então vejam que a posição adotada por eles é a correta. Outros abandonam as discussões, inconformados ao perceber que ainda existem crentes que mantêm uma postura ideológica diferente da sua. Onde fica o Reino dos céus em meio a isso?

A Bíblia está além de qualquer viés ideológico. O cristianismo está além dessa polarização política. Se quisermos experimentar a cultura do Reino, não vamos conseguir encaixá-la em nenhum dos lados, já que suas ideias são “mais ‘tradicionais’ que os tradicionais (com argumentos mais sólidos em defesa da família ou dos valores, por exemplo) e mais ‘revolucionárias’ que os revolucionários (com argumentos mais sólidos na defesa do oprimido, do explorado e do excluído)”, como Leonardo Ramos argumenta no capítulo A Cosmovisão Cristã em um mundo de Esquerdas e Direitas, em Fé Cristã e Cultura Contemporânea.

Como é possível levantar a bandeira do cristianismo selecionando indignações? Apontando o dedo para a falta de caráter do outro sem primeiro tirar a trava dos nossos olhos? Aplicando dois pesos e duas medidas, prontos para clamar uma imparcialidade que só ouvimos no discurso, mas nem ao menos tentamos colocar em prática? É aí que faço coro a Antônio Carlos Costa, quando ele lamenta, em Convulsão Protestante, haver membros de igrejas que são mais de direita ou de esquerda que cristãos.

Não é sobre escolher um lado. Quanto às divergências teológicas, meu pastor costuma dizer que “o que nos une é maior que o que nos separa”. Não quer dizer que não devemos analisar e ponderar sobre as diferenças das práticas e pensamentos, mas que, em última instância, o que traz sentido à essa jornada (seja à vivência cristã ou à esfera democrática brasileira, dentro dela) é a mesma essência. Até os heróis dos quadrinhos eventualmente reconhecem que a manutenção da paz social é um objetivo maior e que se sobrepõe aos seus ideais contrários na busca por ela.

opposition
Ser oposição é fácil, até que você precise se opor a seus próprios pensamentos falhos.

 

Em Cristianismo Puro e Simples, C.S. Lewis diz que “Todos nós desejamos o progresso. Mas progresso significa chegar mais perto do lugar em que você gostaria de estar. E se você tiver virado na esquina errada, então ir para frente não o fará chegar nem um pouco mais perto. Se você estiver na estrada errada, progredir significará dar meia volta e retornar à estrada certa”.

E o tanto que é difícil recohecer o erro? Se em qualquer cenário essa teimosia em permanecer na estrada errada é prejudicial, na caminhada cristã ela é ainda mais danosa, endurecendo nosso orgulho, quando o que o Senhor quer são vasos prontos a serem moldados de acordo com sua vontade. “Não poderei eu fazer de vós como fez este oleiro, ó casa de Israel? diz o Senhor. Eis que, como o barro nas mãos do oleiro, assim sois vós na minha mão, ó casa de Israel” (Jr 18:6).

Duvido muito que alguém tenha uma noção clara de como os acontecimentos dos últimos dias vão impactar os processos políticos e econômicos do país a médio e longo prazo. Até duvido mais ainda de quem diz saber todos os passos da solução. Mas sei que, como cristãos, para a mudança que tanto queremos, passar a pensar no estabelecimento do Reino no lugar de tentar encaixar o cristianismo em padrões desse mundo; entender que seguir a Cristo é mais que fazer um círculo de oração em meio a protestos; e não erguer ídolos e venerá-los como heróis, já são bons começos.

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