O voo da lagarta

Profeta era o indivíduo no Israel antigo que tinha o papel social de denúncia e revelava a vontade do Deus transcendente ao povo que se rebelava contra sua lei, independente do custo que isso tivesse para ele. Griot era o indivíduo na tradição da África Ocidental responsável por transmitir as histórias de sua cultura para que as mesmas permanecessem. Seja em prosa, verso ou música, o seu compromisso era com a memória, com a manutenção de uma tradição que constitui a cultura de um povo.

A história é feita de marcos que sinalizam os caminhos por onde a memória se guia para encontrar suas origens. Na história foram deixados altares, edifícios, textos, estradas, cidades, que mostram quem somos e quem fomos no tempo. Aqui então paro no tempo para aclamar um marco de um tempo em que a música é um dos melhores anunciantes dos caminhos de que viemos e para onde iremos. Os caminhos de futuro e passado se encontram nesse marco a que me refiro, o marco: To Pimp a Butterfly (2015); o profeta, griot: Kendrick Lamar.

Os caminhos na história fizeram com que os homens negros nos Estados Unidos, racista, nos dessem o Jazz de Nova Orleans na primeira metade do século 20. Outros caminhos da história nos levam ao rap, que tem sua origem no final dos anos 70 na periferia de Manhattan. A história correu, a indústria fonográfica se forjou e passou a faturar milhões. Esses gêneros musicais se tornaram mundiais tomando múltiplas formas pelo mundo e em Compton, no estado da Califórnia, essas expressões encontraram o jovem K Dot, o já citado Kendrick Lamar, um jovem, negro, estadunidense sedento pelo ser, desejoso por voar, o rap lhe deu asas. Dono de um flow único, de letras que mostram porque o “p” do rap é reservado a poesia, em To Pimp a Butterfly, Kendrick nos faz repensar nossas origens pessoais a partir de um som orgânico e que engrandece a nobre arte de Nova Orleans que tem como mestre Miles Daves.

Faixas como For free? (Interlude) questionam a indústria musical e seus caminhos de lucro e descaso com o artista, isso com a genialidade nas metáforas, no flow que faz sua voz parecer mais um instrumento feroz improvisando um jazz que começa rasgado com um saxofone potente ditando o tom. A reverência de King Kunta, a dor de U, a esperança de Allright, lembre-se caro amigo, estou falando de uma obra que marca a história e diz qual caminho seguir. Bem, o caminho que ele seguiu é deslumbrantemente celado quando o poema que ele repete faixa a faixa é revelado por completo. Ali ouvimos o jovem K Dot dialogando com o icônico Tupac Shakur, uma conversa de um mestre com um discípulo, uma troca de experiências de quem foi grande com quem está aprendendo a ser, somos lembrados que Pac não vive mais, de que somos mortais.

Uma lagarta que se alimenta do redor depois do casulo pode alçar voo e ser chamada de borboleta, assim nos lembra K Dot. Pode ser chamado de griot, profeta, de Kendrick, um jovem, negro, que expõe em uma obra de arte os seus conflitos, suas dores e esperanças, gritou e cantou como lhe foi possível, em tudo se percebe uma coisa básica que talvez seja o desejo da maioria dos que tentam existir: ele aprendeu a voar… amém!

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