Cultura de massa e o Reino de Deus

A sociedade em que o cristão ingressa pelo batismo não é um coletivo, mas um Corpo. Na verdade, a família é uma imagem desse Corpo no plano natural. Se alguém chegasse com a concepção errada de que a membresia da Igreja é a membresia no degradado sentido moderno – um amontoado de pessoas como se fossem moedinhas ou pecinhas de jogos de tabuleiro -, seria corrigido já de início pela descoberta de que o cabeça desse Corpo é tão diferente dos membros inferiores que estes não têm nenhum qualidade em comum com Ele, a não ser por analogia. (LEWIS, C.S., O peso de glória, p. 158)

Tenho que falar: eu amo comer. Sou dado à antiga arte de me deleitar no gozo simples de me alimentar e, dentro desse prazer, alguns pratos se destacam, e me vem à mente coisas lindas como churrasco, strogonoff e, claro, purê de batatas. Ah, o purê… como eu gosto daquela maçaroca feita de batata e leite, que pode vir com queijo ou como a receita da avó conceber. Gosto tanto de purê que fico irritado se alguém estraga a minha visão ou sabor dele.

No sábado passado (16 de abril de 2016), uma grande igreja de Belo Horizonte fez o lançamento do seu novo movimento de juventude. O encarregado de pregar e mostrar os rumos do movimento teve como tema de sua pregação a unidade da igreja, já que o movimento visa integrar o trabalho com jovens nas várias unidades daquela comunidade. Quero pensar a partir de uma imagem usada pelo pastor em sua pregação: ele falou que unidade é como o purê de batatas, pois nele as batatas não são mais várias peças soltas em um saco, mas passam a ser uma coisa só e adquirem “unidade”, e o processo de unificação das batatas para chegar ao ponto de purê é um processo de massificação. Ao pensar sobre isso, me veio aquela tal irritação que citei ali em cima.

O processo de massificação na culinária é aplicado para a confecção de uma série de alimentos, e tem como principio básico a união de ingredientes que, batidos constantemente, perdem algumas de suas propriedades e se fundem uns aos outros. Isso é bem interessante quando vemos, por exemplo, o pão, que é a combinação farinha e água. Sozinhos, esses ingredientes não podem sustentar um ser humano por muito tempo, mas de pão o homem pode sobreviver. Daí vêm algumas perguntas: existimos só para sobreviver, então? Pode o homem viver plenamente só de pão?

É inegável que a massificação unifica, mas o atual cenário nacional nos dá muitos exemplos de como essa unidade deixa de lado a possibilidade de pluralidade e progresso. A massificação cultural faz coxinhas e mortadelas, panicats e marombeiros, militantes e isentões, haters e zueiros… são tantos os exemplos que revelam as consequências da massificação, que é melhor até pararmos de pensar neles, para não nos entristecermos mais.

Jesus Cristo, em sua oração sacerdotal, clama para que sejamos um como ele e o Pai são um. Temos que ser um, mas isso fica condicionado a como o Pai e o filho o são. Eles são de uma mesma natureza, um mesmo Deus, mas ainda pessoas diferentes, com papeis distintos dentro da comunhão divina da Trindade santa. Isso nos trás de volta às batatas: batatas não precisam ser transformadas em purê para se tornarem unidas, elas já são unidas pelo fato de serem batatas. Massificá-las não mudará a sua natureza, mas nos impedirá de, a partir delas, termos batatas fritas, assadas, sautée, recheadas, nhoque e tantas outras delícias que, mesmo tendo seus próprios sabores e formas de preparo, ainda são unidas pelo fato de serem feitas tendo o mesmo ingrediente principal, a batata.

Dentre as imagens escatológicas mais bonitas que nos dão esperança no reino de Deus, está a visão de povos e línguas diferentes rendidas ao redor do Cristo em adoração. A própria igreja nasceu de um evento em que o Senhor fez um só discurso ser compreendido em vários idiomas. Eu amo ser parte de uma comunidade como a dos crentes que se reúnem ao redor de Jesus adorando a Deus pai, com uma mesma fé, uma mesma esperança, um mesmo prato servido à mesa para indivíduos que falam, oram, cantam, se vestem e fazem mais uma infinidade de coisas de maneiras diferentes. Essa é uma das riquezas que só a igreja do Senhor Jesus Cristo concebe, e por isso uma cultura massificadora não harmoniza com o evangelho. Tudo isso foi dito para lembrar que não precisamos de um discurso de “entre na visão” e “não entre em polêmicas” para sermos unidos. Para isso o Senhor nos enviou o espírito consolador. Há muita beleza na diversidade, e o contrário disso nos deixaria com voz de pato como de uma panicat. Eu amo purê de batatas, mas amo ainda mais um banquete em que vários ingredientes juntos se combinam para o gozo maior. Viva a explosão de sabores!

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