A vida dupla do cristão nas artes

A Igreja tem problemas, disso todo mundo sabe. Mas o jardineiro é Jesus e as árvores somos nozes. A Igreja somos nós. A Igreja é nós. Isso dá poesia, mas é assunto para outra hora.

Um dos problemas da Igreja, então problema nosso, é esse da separação entre secular e sagrado. Mas o que é secular? O que é sagrado? Se o sagrado se tornou hilário, o secular desde sempre foi pecado? Se o sagrado é só o culto de domingo e a reunião do ministério, todo o resto da completude da vida está fadada ao mármore do inferno?

Em termos menos apocalípticos, essa dicotomia faz com que às vezes eu sinta que viva uma vida dupla, principalmente nesse meu interesse por artes. Não como uma hipócrita, nem uma espiã, ou alguém que esconde algo; mas como quem precisa se equilibrar entre duas instâncias que não dialogam. O silêncio das manifestações religiosas na esfera secular respondendo ao silêncio das temáticas deste século (portanto seculares) no âmbito sagrado e vice-versa. Isso quando não se condenam mutuamente.

Quero comprar Fahrenheit 451? Entro numa livraria, nessas de shopping mesmo, e lá está. Quero encontrar A Arte Moderna e a Morte de uma Cultura? “É, não temos nada desse Rookmaaker aqui”, replica o vendedor da tal livraria, e sigo para a loja de artigos evangélicos a alguns quarteirões dali – loja que por sua vez também nem vai ter rastro de algo escrito por Ray Bradbury.

Até um tempo atrás, eu selecionava a rádio de algum dos artistas e grupos cristãos presentes no Spotify, desses com uma linguagem e roupagem mais contemporânea, como o Palavrantiga, e daí a pouco já entravam algumas faixas do Tiago Iorc, Jeneci, Teatro Mágico. Se selecionar a do Tiago, quais as chances de Palavrantiga, Lorena Chaves ou Crombie aparecerem? (O que figura agora na rádio do Palavrantiga é uma seleção com Renascer Praise, Thalles, Aline Barros. O algorítimo não me deixa mentir.)

E os filmes que falam da fé? Sessão de cinema na programação da igreja é com Corajosos, Quarto de Guerra, Deus Não Está Morto. Sessão de cinema em qualquer outro lugar é com qualquer outro filme menos esses.

O que a gente tenta fazer aqui no Sobrado 518 é pensar as relações entre arte, cultura e cristianismo na sociedade. Os diálogos que começam quando temos Cristo de fato como Senhor de tudo e então colocamos em prática o ministério da reconciliação. Não deveria ser tão difícil. Mas no meio disso existem os silêncios. As bolhas, os muros, as cercas. Os dedos que apontam os erros e não os caminhos.

Somos cristãos, e também somos um tanto de outras coisas além disso, mas nosso compromisso com Cristo vem acima de qualquer um desses aléns. Eu sempre digo que acho muito difícil existir um crente que nunca tenha parado de assistir, ouvir ou ler algo, e não porque as obras são de má qualidade artística, mas por conta do Espírito Santo que agora habita em nós. Não é questão de moralismo ou religiosidade. É só que ainda corre sangue e não versículos nas nossas veias, e a gente ainda precisa fugir de tentações.

Do outro lado da moeda, também é um tanto triste deixar de perceber o monte de manifestações da glória de Deus que estão por todo lugar. No final dos episódios do Janela a gente indica músicas produzidas sem nenhum selo de reconhecimento cristão e que mesmo assim carregam um pouco da mensagem do evangelho. Carregam às vezes muito mais do que algumas lançadas por quem é gospel. E isso se repete com prosa e poesia, com pintura, com filmes, com peças de teatro. Com a vida toda.

Em um dos livros mais bonitos que já li, tem uma passagem assim: “Anos atrás, estava deitada no jardim da vovó e Big perguntou o que eu estava fazendo. Disse-lhe que olhava para o céu. Ele respondeu ‘Essa é uma concepção errada, Lennie, o céu está em todo lugar, começa aqui, aos nossos pés’”.[1]

Já passou da hora da gente entender que trazer o reino dos céus à essa terra não é construir muros. Com relacionamentos, o que a gente mais faz é derrubá-los. No momento do louvor, quando cantamos que somos livres, isso não significa (como muitas vezes parece) liberdade só para pular e gritar durante a canção. Significa que somos livres do pecado que nos prendia antes. E um dos desdobramentos disso é que somos também livres para viver nessa terra como se já no eterno lar. Assim, como embaixadores que devemos ser, vamos estabelecendo o reino, começando a vivê-lo aqui.

(E se tem algo fácil nesse discurso todo é fazer com que ele penda para o lado do liberalismo. Mas não é isso não, não é isso mesmo. Discernimento é bom, e todo cristão tem que gostar muitíssimo dele.)

Vamos sempre precisar repetir essas coisas. Ter essa conversa seja com gente nova que está entrando no barco, seja com o mercado que impõe suas lógicas, seja com o pai que compra qualquer produto cristão para o filho e rejeita todos os seculares, contando com a aprovação do selo gospel e sem avaliar os conteúdos. Esse processo incluiu dialogar também com o pessoal de fora da igreja, mostrar que tem coisa boa sendo produzida por cristãos, saber o que eles pensam de tudo isso, entender no que dá pra melhorar. E repetir, conversar, se importar, se relacionar.

Assim, quem sabe um dia a gente não tenha mais que se equilibrar entre as duas instâncias. E começa com cada um rejeitando a vida dupla para experimentar a plena. Porque o jardineiro é Jesus e a Igreja somos nós.


[1] O céu está em todo lugar, de Jandy Nelson. Que não é um “livro cristão”.

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2 comentários sobre “A vida dupla do cristão nas artes

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