De novo o cinema do “nórti”

Alguns devem ter sido pegos de surpresa ao testemunhar os protestos referentes ao cenário político brasileiro em pleno tapete vermelho do Festival de Cannes desse ano. O festival que é um dos mais importantes no cenário dos grandes festivais cinematográficos é um palco antigo de protestos e mesmo nessa edição (2016) pudemos testemunhar atrizes de renome internacional como Julia Roberts e Kristen Stewart adentrando o tapete vermelho descalças, em protesto ao fato de atrizes terem sido barradas no tapete vermelho do filme Carol (2015) por não estarem calçando salto alto. No entanto queria deixar claro uma coisa que pode ficar ofuscado por causa de tudo isso: o cinema brasileiro estava no tapete vermelho de Cannes para a mostra competitiva.

O feito deve ser marcado e reverenciado, afinal de contas o festival tem a tradição de reconhecer as virtudes do cinema contemporâneo e acaba sendo um referencial para os caminhos que a produção cinematográfica deve seguir. Ao longo de suas 69 edições, o festival laureou grandes trabalhos que marcaram a história com o seu maior prêmio, a Palma de Ouro, dentre ele estão: Pulp Fiction de Quentin Tarantino em 1994, Taxi Driver de Martin Scorcese em 76, A Árvore da Vida de Terrence Malick em 2011, dentre inúmeros outros

O cinema brasileiro já teve a honra de ser receber o maior prêmio do festival em 1962 com o filme de Anselmo Duarte O Pagador de Promessas. Nos últimos anos nós tivemos filmes que fizeram parte da mostra e receberam prestigio da crítica como Ela Volta na Quinta (2015) do diretor mineiro André Novais, mas desde 2008 não víamos um representante nacional na mostra competitiva, o último havia sido Linha de Passe de Walter Salles.

Chegamos então a sexagésima nona edição do festival com Aquarius do diretor Kleber Mendonça Filho com boas chances de voltar pra casa ostentando a Palma de Ouro, essa é a dimensão do feito que disse que deveria ser reverenciado. Tudo isso me faz lembrar do ano de 2009, quando no Festival Internacional de Curtas de Belo Horizonte tive o primeiro contato com o trabalho de Kleber, foi com o curta Recife Frio, que saiu vencedor do prêmio do público na ocasião. Fiquei encantado com aquele documentário ficcional que de uma maneira rica em irônia conseguia traduzir bem a realidade da cidade de Recife, pra mim foi marcante pois no ano anterior eu havia morado lá e pude ver de perto tudo o que Kleber dizia em forma de arte. Tenho que ressaltar que era um estudante do segundo período do curso de cinema e que no mesmo festival conheci outros filmes pernambucanos que me deixaram ainda mais intrigado com a produção cinematográfica de lá.

Anos mais tarde eu percebi um rebuliço em torno de um outro filme que vinha da capital pernambucana, a crítica só era elogios para a direção, mise-en-scène, uso do som na linguagem e por aí vai, o filme era Som ao Redor (2012) e o diretor era o cabra do curta incrível que havia assistido anos antes, por isso, não me espanto nem um pouco de ver Kleber Mendonça Filho no tapete vermelho de Cannes. Não sei se fui claro na mensagem meu caro amigo, mas o que quero dizer é que no Brasil o cinema é muito mais rico do que pode julgar o seu vão preconceito e que políticas vão e políticas vem, mas o nosso povo ainda insiste em revelar a sua beleza ao mundo em meio a tempos de facebooks e coisas tais, lembre-se disso!

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