Orações, por Woody Allen, Eyshila e Orlando

Tenho uma certa resistência a assistir produções do Woody Allen, que está muitíssimo relacionada à acusação de ter abusado de uma filha adotiva de sete anos (na mesma época em que se casou com outra filha adotiva, 38 anos mais nova). Mas navegando pelo Netflix na semana passada, dei de cara com Magia ao Luar (2014). Com Emma Stone e Colin Firth bem convidativos no pôster, e uma sinopse de um mágico que pretende desmascarar uma suposta médium (com direito a romance envolvido), quando percebi já estava lá, assistindo a mais um filme escrito e dirigido por Woody Allen.

Fargo (1996) é “uma comédia de erros” de fato, como indica o subtítulo nacional. Relatando uma série infortuna de assassinatos, o filme é entregue da maneira mais despretensiosa possível pelos irmãos Cohen. E isso foi só pra deixar a indicação de um ótimo filme assistido na semana passada, também disponível no Netflix, e para dizer que, ao contrário dele, de despretensioso Magia ao Luar não tem nada.

Stanley, o mágico de Colin Firth, ganha a vida literalmente iludindo as pessoas, e estando super consciente dos truques por trás do que parece ser magia, é um homem crítico, arrogante e cético até não poder mais. Sophie, a suposta vidente de Emma Stone, é seu extremo oposto: com sua simpatia, quer aproveitar o lado leve e mágico (no sentido lúdico) da vida, sempre com uma visão otimista.

Ao observar Sophie de perto para apontar sua farsa, Stanley acaba sendo convencido de que, ao contrário do que acreditou por toda vida, pode sim existir um “mundo invisível” e que existem mesmo mais coisas entre o céu e a terra do que imagina nossa vã filosofia. (Nem vamos entrar no mérito de qual é a espiritualidade presente nessa narrativa – para os efeitos do filme, de ilustrar crença versus ceticismo, basta que seja qualquer espiritualidade.)

Mas tenhamos em mente que esse ainda é um filme de Woody Allen, marcado pelas recorrentes ironias e humor sarcástico a serviço das recorrentes questões existencialistas. Quando sua tia sofre um acidente, Stanley, em sua recém descoberta não-aversão ao extraordinário, decide orar. E na construção de Magia ao Luar, diz bastante que seja durante a oração que o mágico desvende o mistério (que parece ter saído das páginas de Agatha Christie) que envolve o suposto lado místico de Sophie.

Calvino afirmou que “Crentes não oram com o objetivo de informar a Deus sobre coisas que lhe sejam desconhecidas, ou de instigá-lo a cumprir sua obrigação, ou de conclamá-lo, como se estivesse relutante. Pelo contrário, eles oram a fim de que possam despertar a si mesmos com o intuito de buscá-lo, exercitar sua fé na meditação em suas promessas, aliviar-se de suas ansiedades ao derramar-se em seu seio; em uma palavra, que possam declarar que têm esperança e esperam dele somente“.

Na semana passada, por conta de uma meningite viral, Matheus Oliveira, filho da cantora Eyshila, faleceu aos 17 anos. Durante os dias de internação do adolescente, pedidos de oração estavam por todo lugar. Análises teológicas quanto aos pedidos à parte,  em casos assim, nos quais a oração parece a única coisa a nosso alcance (sendo vista como primeiro ou último recurso), vemos essa afirmação de Calvino mais latente do que nunca.

Às vezes orar é difícil pra caramba. Na semana passada, meu pai, que já havia sido submetido a três cirurgias no coração nos últimos meses, foi para o hospital com uma forte dor no peito. Agora está no CTI fazendo exames para que os médicos façam um novo diagnóstico do quadro dele, e decidam o próximo passo no tratamento. Tem sido difícil pra caramba orar.

Não porque não creio no agir de Deus, que vejo sendo manifesto todos os dias, nem porque não espero no Senhor, que é meu primeiro e único recurso, mas porque o peso das ansiedades parece esmagar meu coração, e as palavras parecem sumir.

Sei que Deus que me escutar. Relacionamentos não são construídos – ou mantidos – no silêncio. Por mais difícil que seja, essa luta para que as palavras saiam daqui de dentro  exercita minha fé, me alivia dessas ansiedades, firma minha esperança nEle, na certeza de que Ele é mesmo Senhor de tudo e que Seus caminhos são bem mais altos que os meus.

Também na semana passada, depois do triste atentado em Orlando, no qual um homem matou dezenas de pessoas em uma boate gay e foi morto pela polícia, vi um post no meu feed do Facebook sobre como a hashtag #PrayForOrlando parecia uma piada de mau gosto, tendo em vista o quanto gays sofrem por conta de discursos e ações que são seguidos de um “amém” no final.

Em um discurso e uma ação que demonstra a dependência que quem a realiza tem em relação a Deus, a oração não deveria nunca ser associada ao ódio. É claro que em casos que envolvem a máxima “Deus ama o pecador, não o pecado” a compreensão e a distinção (tanto para quem é cristão quanto para quem não é) do que é a manifestação do amor de Cristo, o que é o escândalo da cruz e o constrangimento que vem a partir disso, e o que é uma manifestação de ódio pode ficar um tanto borrada.

Mas por mais difícil que orar às vezes possa ser, ainda “orarei por Orlando”,  lembrando do caráter de Deus, e pedindo por um mundo sem mais dor, para que o reino venha e todos vivam nessa terra como se já no eterno lar. Ainda orarei pelo meu pai, como orei pelo filho da Eyshila, trazendo à memória o que me dá esperança e quem me dá essa esperança, confiando nos planos do Senhor.

Para a espiritualidade retratada por Woody Allen em Magia ao Luar, o embate entre crença/ceticismo é travado do campo das ideias. Em certo ponto, Stanley diz que até gostaria de estar errado em sua falta de fé, mas que até o momento não havia sido convencido a crer. O problema é que, por mais que as ideias importem, o embate maior não está lá fora, mas dentro de nós. Diz respeito à nossa natureza, humana, falha e pecadora.

Quando começarmos a deixar nosso orgulho e egoísmo de lado, nos permitindo depender de Deus e confiando nEle, talvez – só talvez – a gente passe a orar direito. Por mais difícil que possa ser.

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3 comentários sobre “Orações, por Woody Allen, Eyshila e Orlando

  1. Nunca comento em um blog de alguém que não conheço, mas começar o dia lendo o seu texto foi ótimo pra mim. Primeiro de tudo: eu também não assisto os filmes do Woody Allen pelo mesmo motivo, me sinto incentivando ele como pessoa quando assisto um dos filmes dele, mas esse filme parece bem legal. Segundo: meu pai também está doente, uma situação bem delicada, e eu também me vi com uma dificuldade terrível de orar. Foi bom ler que eu não estou sozinha. Quero desejar melhoras para o seu pai, e obrigada por esse texto!

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    1. Espero que fique tudo bem com seu pai logo, Leonora!
      O meu voltou pra casa nessa semana e está de repouso. Minha oração é pra que ele fique longe de hospital por um bom tempo!
      Tenho aprendido que Deus quer muito que a gente seja honesto e sincero com Ele. É difícil e às vezes as palavras custam a sair, mas a gente só não pode desistir de tentar.
      Escrevi isso aqui (que um dia vai virar canção) sobre esses silêncios, que resume bem o sentimento pra mim: https://amandaeafins.wordpress.com/2015/09/10/chao-do-ceu/

      Curtido por 1 pessoa

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