A vida e Como Eu Era Antes de Você

É uma verdade universalmente conhecida: quando um filme tem a fama de fazer chorar, é porque alguém morre no final. Quando fui imprimir meu ingresso de “Como Eu era antes de Você” (2016), a moça da papelaria me perguntou se eu estava levando uma caixa de lenços comigo, porque certamente lágrimas rolariam.

Roteirizado por Jojo Moyes a partir do seu livro que virou best-seller, “Como Eu era antes de Você” começa com Louisa Clark (Emilia Clarke) à procura de um novo emprego. Sem muitas qualificações, a ex-garçonete passa a trabalhar como cuidadora de Will Traynor (Sam Caflin), que ficou tetraplégico após um atropelamento.

Quem contrata Lou é a mãe de Will, que não quer uma enfermeira ou alguém que vá tratar seu filho como um paciente, mas sim uma companhia apta a alegrar seus dias. Louisa, com um riso fácil e um gosto peculiar na hora de se vestir, é a pessoa perfeita para isso. Fazendo jus ao gênero de romance, Will e Lou mal sabem que estão prestes a mudar a história um do outro.

“Como Eu era antes de Você” é um filme cheio de contrastes. A pequena e barulhenta casa de Lou destoando do clima plácido do castelo dos Trainors. Os movimentos desastrados de Lou frente à falta deles em Will. O Will de antes do acidente, ativo e aventureiro, e o de agora, que passa grande parte de seu tempo encarando janelas, observando o mundo lá fora apenas através delas.

Em certo momento, Lou ouve uma conversa na qual os pais de Will discutem sobre a decisão do filho de realizar um suicídio assistido em uma clínica na Suíça dali a poucos meses. Daí em diante a moça planeja vários momentos e experiências para mostrar a Will como a vida ainda pode ser bonita. Em meio a desventuras, risadas e uma paixão crescente entre eles, Lou passa a acreditar que Will vai mudar de ideia.

Se você ainda quiser experimentar o fator surpresa no filme, sugiro que pare a leitura por aqui e volte depois.

Mas, fiel à fama de “filme de fazer chorar”, Will não volta atrás em sua decisão. Para ele, a vida não valia mais a pena ser vivida. Ele afirma repetidamente que, nesse seu novo contexto, aquela não era sua vida. Mesmo resistente a essa escolha, Lou vai para a Suíça e fica ao lado de Will em seus últimos momentos de vida.

Como o título do filme sugere, seu tema gira em torno daquelas relações que mudam nossas vidas. Mas, em sua narrativa, é preciso passar também por outras questões. O que dá sentido à vida? O que significa sacrificar suas vontades por amor? É válido julgar as decisões das outras pessoas?

Quando ficamos sabendo da intenção de Will ir para a clínica, a carta que chega da Suíça é deixada ao lado de uma foto dele sorridente quando criança. A ideia da inocência em contraste com a desesperança. Quando Lou chega na clínica para acompanhar Will, vemos um ambiente ensolarado, cheio de tons de branco e azul claro, com o vento soprando suavemente pelas cortinas. Um clima de paz em contraste com a morte, o motivo para sua ida até lá.

A mãe de Lou, ao ouvir sobre a decisão final de Will, diz que “Algumas escolhas não devem poder ser feitas”, ao mesmo tempo em que é possível observar um pingente de cruz brilhando em seu pescoço. Não me lembro de ter visto esse pingente lá antes, mas o que importa mesmo é vê-lo neste momento, para marcar que o posicionamento da mãe está firmado em sua fé, e que se Lou for dar suporte a Will, é preciso que ela pense de uma forma diferente.

E depois de momentos românticos ao som de Ed Sheeran, de Will demonstrando todo charme e atenção que o antigo namorado de Lou não tinha, e trazendo um brilho novo à pacata vida da garota, não é de se espantar que o que se ouça na sala de cinema seja o choro de quem deseja ver Lou pegando o avião para ir segurar a mão de Will até o fim.

Mas se o rico (tendo condições de viver em uma casa totalmente adaptada, com todos os cuidados médicos necessários à sua disposição e podendo fazer viagens ao redor do mundo sempre que quisesse), inteligente, bonito e charmoso Will Trainor não consegue ver sentido em sua vida após ficar tetraplégico, quem mais veria?

O golpe de misericórdia é quando, após a morte de Will, Lou lê uma carta que ele deixou para ela. Com a narração de Will, ouvimos o encorajamento “Viva intensamente. Viva bem. Apenas viva”. Viva intensamente, até que não valha mais a pena viver? Contraste maior que esse não há.

O site Christ and Pop Culture traz esse artigo (em inglês) sobre como um boicote ao filme não é a melhor saída para lidar com as respostas anticristãs para os temas que ele levanta. A autoria é de Abby Perry, que é mãe de um garoto portador de um distúrbio neurogenético. O relato dela sobre o tema da eutanásia é bem mais verdadeiro e tocante do que qualquer coisa que eu possa dizer sobre. Ela termina o texto fazendo uma alusão ao título original do filme (Me Before You – Eu antes de você, numa tradução literal) e ao sacrifício de Cristo (Me Instead of you – Eu no lugar de você).

Um dos motivos pelos quais gosto de ficção é que através dela conseguimos pensar como lidamos com vários aspectos da vida. E cada manifestação artística tem suas lógicas distintas para construir suas histórias, criar sensações, nos envolver naquela trama. É importante demais que a gente não se deixe levar por noções com as quais não concordamos, mas que são apresentadas em uma história tão bem contada, que a gente se vê chorando e torcendo por um final que representa muito do mundo caído e da desesperança que paira sobre ele. Mesmo em algo às vezes tido como tão bobo quanto um filme de romance, de fazer chorar.

*Publicado originalmente em Ultimato Jovem

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