A luta do luto em cores de Almodóvar

A partida enlutece o que não se foi e o luto ensina o que permanece, o que o tempo não sujeita ao fim ganha destaque quando a finitude se revela, tudo pois encontra o seu fim e somente o eterno fica. O Eclesiastes já cantava essa pedra antes mesmo que a ilusão do tempo pudesse ser cravada em retratos e a imagem à frente nos fizesse achar que quem se foi ainda está por perto, ele dói, mas melhor ele do que o banquete.

O luto é um dos personagens mais reais presente nas narrativas de nossas vidas, pouco é o que tem o potencial dele para dizer quem nós somos, para dizer o que vem e vai, lembre-se do seu luto e saberá o quão essa experiência foi real. O que é o luto então, a morte? A partida? O fim?

Não bastava a alegria de termos mais um obra de Pedro Almodóvar para nos fazer perceber o vermelho e o amarelo ibérico como tom das coisas, para  retratar o feminino nas entranhas mais contraditórias e verdadeiras que se podem encontrar no cinema, a paixão, a dor, o humor, o calor, o sexo, a identidade, o desejo, tudo o que um Almodóvar tem de melhor!

Julieta (2016) é o último filme do celebrado diretor de A Pele que Habito (2011), Volver (2006), Má Educação (2004) e tantas outras obras que revelam o poder autoral de um homem que carrega a sua obra com o máximo de si, sua origem e seus conflitos. Pelo título já podemos inferir “está aí mais um filme do Almodóvar sobre o universo feminino”, mas olhe de novo… tem o feminino, mas dessa vez é o luto que recebe os holofotes.

Ao final do filme uma pergunta me veio à mente: que luto dói mais? As personagens de Almodóvar são sempre cheias de camadas, nada se dá ao acaso em seus roteiros, cada cena é carregada de dramaticidade que pode ser destrinchada em vários outros filmes, com os lutos em Julieta não foi diferente. Seja na morte do estranho no trem, na viuvez ou na filha desaparecida, nada é simples o suficiente para ser descrito em apenas uma conversa de bar.

Calma, não me esqueci das mulheres fortes e Julieta é uma mulher com as dores que levam à força que eu, homem comum, só posso aprender com minha mãe, mesmo que esse aprendizado seja refratado pelo meu mero ser masculino. Bem por isso à elas pouco me entreguei nessas linhas, mas o luto, esse eu conheço desde menino, o da morte, o da partida e o do fim, se você não os conhece pode deixar que de maneira bem particular Almodóvar conta para você, afinal é melhor o confronto do luto que o conforto do banquete.

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