As iguarias do rei e as ruas do Bronx

A juventude é uma coisa louca de se viver, tô nessa aí há algum tempo e ainda tô tentando entender como se faz. Tem gente séria tentando analisar tudo pra dar um parecer decente e fazer dessa fase da vida algo maior do que vestibular, primeiro emprego e Kinder Ovo (saudades da época que era um real. Sim, já foi um real. Vinte anos atrás, mas foi!). Para não deixar de citar o meu querido cinema, lembro de Laís Bondansky e Gus Van Sant, com suas obras que compreendem a juventude como poucas nesse tempo que chamamos hoje.

O retrato do ser humano nunca é fácil de fazer. Somos complexos demais para sermos reduzidos em signos de uma só cor que pouco revelam do espectro de toda a existência. A juventude talvez seja a fase da vida em que essas cores possuem um espectro ainda mais amplo, pois nada é denso o suficiente para ter o destaque de sobressair sobre tudo o mais e marcar uma identidade no mundo. É na juventude que está o início das construções, as escolhes que definem todo o resto. Podem ser as cores primárias, as combinações carregadas, os tons mais claros ou os mais escuros. A gama é bem grande e no final da jornada chamada vida as cores predominantes poderão ser reconhecidas e essas escolhas vão poder em algum aspecto definir um pouco de quem somos.

Em The Get Down, recente e primorosa série produzida pela Netflix (não sei mais como vivemos tanto tempo sem vocês!), a professora Green questiona o jovem Ezekiel sobre sua coragem, dizendo que se ele tivessem pelo menos um pouco disso poderia ser algo mais, pois “líderes lideram e covardes se acovardam”. A série apresenta o cenário do Bronx, periferia de Nova York, no final da década de 70, onde jovens começavam a pintar paredes com muitas cores, a dançar com a cabeça no chão, a arranhar discos para mostrar ritmo para além das faixas neles contidos e a contar e cantar poesias por cima de tudo isso, dando forma ao que é a cor na vida de muitos hoje, a cultura hip hop.

Coragem, pode ser essa a marca que destaca a juventude das demais fases da vida. Talvez por não termos vivido o suficiente, talvez por termos mais vigor físico. Não tô aqui para encontrar razões exatas, mas a coragem é o que fez de Ezekiel diferente dos outros. Não podemos esquecer que a coragem só ganha contornos claros quando conhecemos o medo. Há muito, muito tempo, alguns jovens foram levados de sua terra para um império de riquezas em que tudo era de fato grandioso. Eles foram escolhidos a dedo para serem grandes, integrando-se ao sistema que se impunha. Seus nomes eram Ananias, Misael, Azarias e Daniel.

Com certeza eles tinham medo, mas isso não os impediu de não se contaminar com as iguarias dos reis e não se dobrar diante da imagem de quem se achava deus. Por tudo isso eles foram levados à cova dos leões e ao forno ardente, mas se você consultar a história verá que no final esses quatro viram uma glória maior que o medo que fora obstáculo antes. Mesmo que nos lembremos deles apenas como Sadraque, Mesaque, Abednego e Beltessazar, sua histórias se tornaram maiores do que os signos que podemis tentar atribuir a eles.

Acho que é a coragem que faz o jovem confrontar poderosos e pretensiosos, mesmo que esses sejam eles mesmos. A cultura hip hop tem na sua origem a contestação. Desde os tempos de Grandmaster Flash a arte se tornou uma arma para fazer, ouvir e apresentar uma realidade muitas vezes cruel justamente para subverter tudo em busca de mudança, em busca de algo que seja verdadeiro, bonito e bondoso.

Para finalizar, deixo a dica que pode ser conselho para os que gostam de dar mais crédito ao que é dito: assistam The Get Down e leiam o livro de Daniel no Antigo Testamento da Bíblia Sagrada. Talvez dessa forma você perceba que a fornalha pode não ser tão quente e que falar da poesia do graffiti nos palanques é muito mais importantes do que repetir “vote Ed Koch”.

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