Tretas de Gênero e o Etnocentrismo

 

Era uma tarde normal na VIII Aldeia Multiétnica, parte do Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros… Para aqueles que não sabem, a Aldeia é uma iniciativa que promove o intercâmbio entre indígenas, além de proporcionar uma oportunidade para que eles possam mostrar um pouco de sua cultura para pessoas do mundo todo. Na sua 8ª edição o evento contou com aproximadamente 200 indígenas, tendo representantes de mais de 8 etnias.

…Então voltando àquela tarde recheada de normalidade, um curioso caso, rico em elementos sócio-antropológicos, ocorreu. De repente surge no local um grupo de luta nas questões de gênero e sugere a realização de uma vivência para o pessoal da portaria. Era uma proposta de quebra de tabus impostos pelo patriarcado. -“Mas como seria esta vivência?”, quis saber o pessoal da recepção. Veio a resposta: -“Faremos uma roda, ficaremos todos nus e tocaremos os corpos uns dos outros. Tudo isto com o intuito de quebrar os tabus e neuroses que o patriarcado nos impôs” disse certa menina de fala serena. Um pouco perdidos, os responsáveis pela recepção aconselharam a menina a falar com Simone Biles*, antropóloga e coordenadora da Aldeia.

Subitamente, a Menina da Fala Serena foi ter com a antropóloga. Lá chegando, explicou novamente toda sua proposta e aguardou para ouvir a seguinte resposta: -“Olha, eu já militei por todas essas causas em coletivos da faculdade, mas minha mente mudou depois que passei a conviver no meio dos indígenas. Aprendi que quem tem problemas com a questão de gênero somos nós e não eles. Estes indígenas estão super resolvidos em relação aos papéis sociais que homens e mulheres desempenham. Quem sofre com isso, quem não está resolvido, é a gente. Então, eu peço desculpas, mas infelizmente essa oficina não pode acontecer porque nós não vamos pegar um dilema que é nosso e jogar pra eles, pois os indígenas já tem problemas de mais pra resolver”.

Então, percebendo que não tinha jeito mesmo, a Menina de Fala Serena se retirou. E eis que este e outros acontecimentos fizeram do período vespetino daquele dia mais uma tarde normal na Aldeia Multiétnica.

*Nome fictício

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