Que tal deixar o Google um pouquinho de lado?

Enquanto eu seguia rumo à parada na qual esperaria pelo veículo de transporte coletivo que facilitaria minha locomoção pela cidade (leia-se: ia pegar ônibus), notei que em uma das garagens no caminho estava estacionado um Eclipse, modelo da Mitsubishi, um esportivo compacto, fabricado entre 1989 e 2011, primeiro carro que o personagem do Paul Walker dirige em Velozes e Furiosos e tudo mais.

Quando criança, eu não era extremamente ativa. Meu negócio era mesmo ler gibi, decorar letra de música, ficar horas em partidas de jogos de tabuleiro e tal. Nessa lista pode ser encaixada a estimulante prática da adedanha. Stop para alguns. Aquele jogo no qual você se empenha em ser o primeiro a terminar de escrever no papel o nome de um país, de um filme, de uma FVL (fruta, verdura ou legume), e por aí vai, todos começando com uma letra específica. Eu ficava torcendo para a letra E ser sorteada, para que eu conseguisse escrever Eclipse na coluna dos carros.

É que se você e outra pessoa tivessem escrito a mesmíssima coisa em uma categoria, a pontuação era menor. E na maioria esmagadora das vezes, ninguém conhecia esse ilustre carro, digno da atenção de Paul Walker. Todo mundo dividia os pontos com o Elba, e o Eclipse era só meu.

Mas por quase ninguém conhecer o Eclipse, na maioria esmagadora das vezes eu também tinha que jurar de pés juntos que esse modelo de carro existia de verdade, que não era invenção da minha mente ardilosa para garantir 10 pontos na brincadeira. E aí as pessoas precisavam acreditar em mim. Algumas ficavam olhando torto em minha direção, mas a gente seguia o jogo, até que era hora de olhar torto para quem escrevia Iugoslávia e ganhava os pontos sozinho no país com a letra I no lugar de ter que dividir os pontos com todo mundo que escreveu Inglaterra.

Tem bastante tempo que não me engajo na aventura de jogar adedanha, mas imagino que hoje a dinâmica seja um tantinho diferente. Ao primeiro indício de dúvida ou questionamento na mente das pessoas de 10 anos quanto a Iugoslávia ser mesmo um país ou uma invenção do coleguinha que trapaceou, é só pegarem seus smartphones com acesso à internet e procurarem pela resposta no Google.

Quantas vezes você estava numa conversa descontraída com os amigos, aí uma situação meio assim aconteceu: você disse que amou a Keira Knightley naquele filme de época, e outra pessoa chegou dizendo “não era a Keira lá não… acho que nesse foi a Natalie Portman, hein”, e então, antes mesmo de uma interessante e saudável discussão noite adentro começar, alguém procurou pela ficha do filme no IMDB e acabou com aquele dilema?

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O negócio é que eu gosto dos dilemas. Gosto de ficar com essa pulga atrás da orelha. De prestar mais atenção ao mapa mundi da próxima vez que abrir o livro de Geografia para ver se tem mesmo uma Iugoslávia ali. De ficar à procura das capas de filme de época na locadora (e hoje no Netflix), para ver se encontro Keira Knightley ou Natalie Portman por lá.

Nada contra o Google, com seus avançados mecanismos de busca que facilitam e muito minha vida no século XXI. É só que às vezes uma resposta imediata, mesmo que certa, tira a graça da coisa.

Algo que gosto muito no Velho Testamento é o fato de que a gente tem a chance de aprender com os erros do povo de Israel, para tentar não cometê-los de novo. Já temos acesso a um monte de respostas naquelas páginas. E por mais que a gente consiga evitar algumas pisadas na bola por conhecer as deles, outras ainda vão acontecer conosco e render uns machucados e cicatrizes. Faz parte do processo. Que nem quando você erra algo na prova, leva zero na questão, aprende a lição e então não erra mais aquilo.

Às vezes me faço perguntas sem querer uma resposta imediata. Desde “será que um litro de leite pesa um quilo?” (sei que eu devia lembrar dessa lá do ensino médio, mas Física não era muito minha praia), até “por que será que Deus ainda não respondeu aquela minha oração?” (aquele típico “agora não”, que costuma nos atormentar na espera). Talvez para essa última eu até quisesse uma resposta rápida, mas uma das lições da espera, além dessa de que há um tempo certo para tudo, é que o caminho importa tanto quanto o destino. Chegar na resposta certa do jeito errado é menosprezar demais essa jornada. Que nem colar na prova: ganhar os pontos sem ter aprendido a matéria.

Que a gente confie que Iugoslávia é mesmo um país e que Eclipse é mesmo um modelo de carro na adedanha. Se depois você descobrir que era mentira do coleguinha para ganhar mais pontos no jogo, diga que isso é feio e que ele te deve dez pontos na próxima rodada. Se não for de extrema importância, deixe a dúvida sobre Keira Knightley e Natalie Portman permanecer no ar. Elas parecem muito uma com a outra mesmo, ainda mais caracterizadas com trajes de época. Outro dia você descobre qual das duas protagonizou o filme e aproveita pra chamar todo mundo pra assistir junto. Ainda vou estar com um litro de leite na sacola quando passar perto de uma farmácia com balança na porta e realizarei o sofisticado experimento de subir nela sozinha e depois com com o litro de leite na mão para ver qual foi a mudança no peso. Muito mais legal que jogar no Google.

E essa não é uma exaltação da errância e da busca eterna, ao som de I Still Haven’t Found What I’m Looking For do U2, muito menos um menosprezamento do conhecimento e de certezas absolutas. É só um desejo de que a gente dê o devido valor a cada etapa do processo. Ainda mais quando as perguntas são daquele tipo que não têm resposta pronta no Google.

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2 comentários sobre “Que tal deixar o Google um pouquinho de lado?

  1. Muito bom! Faz bem saber esperar o momento de se estar pronto pra receber as respostas que se precisa receber. * -*
    obs: na minha cidade chamamos “Adedanha” de “Stop”. e sempre que o primeiro teminava de escrever em todas as colunas ele gritava “stop!” e aí todo mundo tinha que parar onde estava.

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