A verdade no amar alguém segundo Richard Linklater

Todo romance quer ter contornos de grandes dramas, contos épicos que elevem à máxima potencia a experiência fantástica de se amar alguém. O cinema há muito vem nesse esforço de apresentar o amor tórrido e triunfante para tomar de assalto algum casal desavisado que veja ali projetados os seus desejos mais íntimos com todo um ideal de ser dois na potência sentimental do coração de um só. No entanto, temos que nos perguntar: é isso que temos na realidade?

O cinema é por essência um arte que parte da matriz do real, tendo em vista que é a imagem fotográfica que compõe o que assistimos em movimento na tela, mas desde Gerorges Méliès o cinema tem se dado ao desejo de transcender o real e transformar em narrativa os sonhos, dando cores e formas à vida que os olhos não podem contemplar se não estiverem fechados e sobre um travesseiro à noite.

O dilema da busca pelo irreal não é apenas uma questão cinematográfica, mas é o que muitos enfrentam, ainda mais nesse tempo em que os ideais individuais têm tomado o lugar de tudo o que nos forma enquanto indivíduos. Sim, uma contradição! Ninguém é alguém sozinho e não há como se sustentar tendo apenas a imagem do espelho. É assim que padece o mundo, e por consequência os relacionamentos afetivos que vivemos nele.

Agora falamos da trilogia Antes (Antes do Amanhecer – 1995; Antes do Pôr-do-Sol – 2004; Antes da Meia-Noite – 2013), que foi roteirizada e dirigida por Richard Linklater. Em meio a todo esse individualismo e dessas idealizações afetivas, a obra de Linklater é sem sombra de dúvidas um respiro. Me refiro à obra no singular pois são três filmes que acompanham o relacionamento de um único casal, Jesse e Céline, interpretados por Ethan Hawke e Julie Delpy respectivamente. O curioso é que existe um intervalo de 9 anos entre a gravação de cada um dos filmes, tempo esse que também é contemplado na vida das personagens.

Em entrevista ao jornal inglês The Guardian, Ethan Hawke descreveu sinteticamente a narrativa de cada um dos filmes, sendo que o primeiro é sobre o que poderia ter sido, o segundo sobre o que deveria ter sido e o terceiro sobre o que é. A afirmação é bem curiosa, pois essas etapas são pelo que passam as pessoas comuns que se relacionam com pessoas comuns em um mundo comum, nada muito além e nem mesmo muito aquém.

Bem, se é tudo tão comum, onde está então a beleza dessa obra? Está justamente aí, pois os filmes não se dão ao trabalho de te oferecer contos mágicos cheio de reviravoltas inesperadas para sensibilizar os corações carentes, mas se valem dos retratos das coisas mais comuns de um relacionamento para nos encantar. Seja um olhar, um toque carinhoso ou uma conversa tola sobre nada, mas que dizem tudo que só o outro amado pode entender.

Não vou dar mais descrições de cenas e do roteiro desse lindo romance, afinal de contas o que desejo é que você vá em busca de assisti-lo, mas vai aí uma curiosidade relacionada ao idealizador e condutor dos filmes. Richard Linklater teve a ideia do primeiro filme em uma noite em que conheceu uma mulher, teve apenas essa noite de romance simples, mas marcante, e, na esperança de que Amy os reconhecesse na história de Jesse e Céline, lançou o filme em 95. Porém Amy nunca pode assistir, pois morrera em um acidente de moto um ano antes, aos 25 anos de idade.

No fim de tudo, o importante é lembrarmos que o simples geralmente é verdadeiro e aponta para o eterno, enquanto o extraordinário é fantasia e acaba quando os créditos sobem. Assim vivamos, pois.

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