Ainda somos os mesmos

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Deve ter ocorrido uma convenção nacional dos professores de ciências do ensino fundamental, lá pelo início dos anos 2000, na qual ficou determinada, por decisão unânime, a exibição de Ilha das Flores (1989) aos alunos. Naquele cenário de sala de aula, o curta de Jorge Furtado servia para ilustrar a trajetória do alimento desde o  produtor até nossa mesa e então ao lixão, para, na melhor das hipóteses, servir de alimento a porcos, e na pior, a outros seres humanos.

Com uma construção em moldes bem didáticos, contendo descrições das implicações de um encéfalo altamente desenvolvido em combinação com um polegar opositor e do movimento de transações em torno do lucro, em uma narração não tão formal assim, com imagens indiciais para acompanhar, parecia, aos meus olhos de aluna do fundamental aos 13, 14 anos, que aqueles quinze minutos de vídeo eram uma aula de Telecurso 2000 mais interessante que as usuais.

Voltar a Ilha das Flores dez anos depois ainda é achar que aquele curta documentário parece uma aula de Telecurso 2000 mais interessante que as usuais, mas é também achar o diretor muitíssimo sagaz por essa escolha. Ao conduzir o espectador por cada passo da formação do argumento apresentado, da realidade de que por conta dos sistemas hierárquicos que criamos tem gente sobrevivendo em condições deploráveis, Jorge Furtado não deixa espaço para deduções.

Quase três décadas depois, quase nada mudou. Jorge Furtado continua sagaz no uso da linguagem cinematográfica, seguindo a linha de documentários encenados com obras como A Matadeira (1994) e O Mercado de Notícias (2014), além de ficções que tratam de temas sérios com leveza e com um humor que foge de tiradas engraçadas e foca nas ironias das engrenagens das situações, como em O Homem que Copiava (2003)e Meu Tio Matou um Cara (2004).

O Guarani – em metais nos créditos finais do curta – continua abrindo A Voz do Brasil nas rádios às sete da noite. Ainda existem muitos lixões como o de Ilha das Flores por aí, quiçá piores. Em 2016, como não pensar nos refugiados ao sermos lembrados de que ainda tem gente sobrevivendo em condições deploráveis por conta dos sistemas hierárquicos que criamos? Em vista disso, professores de ciências do ensino fundamental: continuem exibindo Ilha das Flores aos alunos, por favor. Se algo mudou, é que cada vez mais cedo dá para perceber que o curta não é só sobre o lixão.

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