A eterna mesa da casa de Tia Zilda

Quando pequeno existia uma mesa na cozinha de casa onde comíamos juntos ao horário do almoço. Nem sempre estavam todos, mas a mesa estava. Lembro da minha resistência em comer as “coisinhas verdes”, até que um certo dia meu pai me disse para colocar ketchup. Confesso que esse foi o meu recurso para a adesão de novos sabores por um bom tempo.

Naquele tempo, os almoços de domingo eram na casa de vovó Zélia, no sítio. Vovô Waldir se sentava na ponta da mesa grande da sala, sempre com um potinho de pimenta do lado na hora de comer. Vez por outra ele fazia uma paçoca de carne que poucas vezes se encontrava presente no final do dia. A mesa das crianças era no outro cômodo, uma redonda que não era grande o suficiente pra toda a criançada sentar, mas eu sempre esperava um pouquinho pra ficar ali comendo e olhando pra fora, vendo a caixa de areia e o pé de pitomba. Dormíamos lá direto e vovó fazia uma panelada de miojo e até hoje me frustro quando faço em casa e vejo que o tempero da embalagem não é o mesmo que ela usava.

Tudo isso ficou para trás, num tempo que se transformou em saudade, contido somente nas conversas de encontros esporádicos da gente que carrega o mesmo sangue. As mesas se foram uma a uma, tudo se vai. Junto com o tempo foi tia Zilda, e Vovó Zélia me perguntou ao final do enterro “como vai ser sem ela?”, eu não sei vovó, mas vou tentar um pouquinho falar como foi com ela.

Ir para a casa de tia Zilda era um dos pontos altos das férias escolares quando vínhamos de Janaúba para Belo Horizonte. Ela dava presentes legais, tinha Cartoon Network em casa com uma sala que tinha um sofá que levantava as pernas, era muito daora! Quando meu pai se mudou, ele foi morar na casa dela, lá era o refúgio de todo mundo que tentava seguir novos rumos na vida. Tenho a impressão de que todo mundo já morou ali, seja na frente ou nos barracões do fundo. Comigo não foi diferente, morei na casa dela duas vezes, aprendi a comer batata baroa, nescau ball e yakut (minha secura ganhou uma barriguinha lá).

Leitora compulsiva, lia de tudo, sem critério, só pra ter o que ler mesmo. Tinha tanto livro que todo mundo pegava um emprestado, e se eu revirar os meus devo achar algum dela. Levou todo mundo pela primeira vez ao Mineirão, lembro da almofadinha do Cruzeiro que ela tinha pra sentar na arquibancada nos tempos em que ir ao estádio não era um evento de arena, mas uma festa de gente. E a agendinha com os telefones e aniversários de todo mundo? Acho que eu lembrava que tava um ano mais velho só depois do parabéns dela.

Ensinava todo mundo a falar a verdade, nunca por lição de moral, mas porque ela ia jogar na sua cara mesmo tudo o que pensava. Tinha um monte de afilhados por aí e ainda era mãe, tia, vó, amiga, vizinha, comadre sem nunca ter dado a luz. Me dói muito escrever sobre ela no passado, mas a mesa da sala que ela sentava com suas revistas para ver tv vai continuar eterna.

São eternos esta oficina mecânica,
estes carros, a luz branca do sol.
Neste momento, especialmente neste,
a morte não ameaça, tudo é parado e vive,
num mundo bom onde se come errado,
delícia de marmitas de carboidrato e torresmos.
Como gosto disso, meu Deus!
Que lugar perfeito!
Ainda que volta e meia alguém morra, tudo é muito eterno,
só choramos por sermos condizentes.
Necessito pouco de tudo,
já é plena a vida,
tanto mais que descubro:
Deus espera de mim o pior de mim,
num cálice de ouro o chorume do lixo
que sempre trouxe às costas
desde que abri meus olhos,
bebi meu primeiro leite
no peito envergonhado de minha mãe.
Ofereço cantando, estou nua,
os braços erguidos de contentamento.
Sou deste lugar,
com tesoura cega cortei aqui o meu cabelo,
sedenta de ouro esburaquei o chão
atrás do que brilhasse.
Pois o encontro agora escuro e fosco
no dia radioso é único e não cintila.
Veio de vós. A vida. Do opaco. Do profundo de Vós.
Abba! Abba! Aceita o que me enoja,
gosma que me ocultou Teu rosto.
Vivo do que não é meu.
Toma pois minha vida
e não me prives mais
desta nova inocência que me infundes.

QUALQUER COISA QUE BRILHE – Adélia Prado

Você brilhou, tia Zilda, por isso não consigo te dar adeus. Só um até breve.

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