Entre a Fantasia e a Realidade

Assim como existem dois caminhos a se seguir na vida, o da natureza e o da graça, como já observou Terrence Malick do início do seu (espetacular) filme A Árvore da Vida (2011), acredito também que existam dois mundos. Sim, dois mundos!

Não, eu não estou louco, acredito que exista um mundo real: esse que conhecemos e que está cercado por uma realidade material e outra espiritual. Mas também acredito em um mundo imaginativo que seria um reflexo de um mundo perfeito, e por vezes um reflexo do nosso próprio mundo. Tolkien chamou de Faërie, Chesterton de Elfolândia e você pode chamar do que quiser. Esse mundo imaginativo nada mais é do que o lugar onde a realidade e a ficção se encontram. O ponto de encontro entre a realidade e o desejo.

Recentemente estive em um evento em homenagem às Crônicas de Nárnia aqui em São Paulo, no Mosteiro de São Bento. Logo na primeira escada, indo em direção à exposição, me deparo com um gigante armário. Entendi a referência, mas não foi nada que tenha mudado minha vida. Contudo, ao chegar no andar da exposição, me deparo com duas portas de madeira maciça, com um pouco mais que dois metros de altura. Estavam as duas fechadas, mas não trancadas. A mulher que estava me guiando na exposição disse que esta porta seria a última parte da exposição. No entanto, ao entrar, tudo estava escuro. As portas se fecharam atrás de mim. Parei por um instante sem saber se continuava ou se retornava. Resolvi avançar, mas conforme fui andando, percebi algumas roupas penduradas em cabides no meio do caminho.

De repente, algumas folhas começaram a aparecer, próximas de um feixe de luz. O chão tinha mudado de textura também, estava relativamente menos duro e mais suave, como se estivesse pisando em terra. Tudo aquilo me era muito familiar… Foi então que finalmente sai dessa escuridão e percebi que tinha saído de dentro de um armário. Imediatamente me deparei com um poste de luz aceso e foi então que me dei conta do que a organização do evento havia feito. Nem preciso dizer que achei fantástico, né? Mas devo deixar claro que minha intenção não é falar sobre esse evento, mas sim sobre o momento em que a realidade e a fantasia se encontram.

Qual é a importância da fantasia? Chesterton, em seu livro Ortodoxia, entende que a fantasia é a responsável por impedir o homem de ser destruído pela lógica e por fim se afundar na loucura. Concordo com ele, a fantasia nos permite chegar a lugares impossíveis ou até mesmo inexistentes. Na verdade, será que esses lugares são completamente inexistentes mesmo? Bom, eu acredito que não. Acredito que esses lugares, embora não totalmente reais, são completamente possíveis.

Isso quer dizer que acredito em fadas, gnomos e Papai Noel? Obviamente que não. Mas não me surpreenderia se existissem, afinal, como sabiamente afirmou Santo Agostinho: de todos os absurdos, acreditei no maior de todos eles. Isso quer dizer que por acreditarmos no Cristianismo, isso implica em logicamente estarmos suscetíveis a acreditar em toda e qualquer fantasia humana? Sim! E não… Calma, vou explicar.

Ao acreditarmos que o Cristianismo é verdadeiro, acreditamos em um Deus atemporal que sustenta toda a sua criação. Acreditamos também que esse Deus, ao criar o ser humano, colocou nele sua própria Imagem e Semelhança, o que significa que temos aspectos semelhantes aos do nosso criador e que apontam para ele.

Por exemplo: Ele é o próprio amor, nós amamos; Ele é a própria esperança e nós temos esperança; Ele é o próprio criador, e nós, segundo Tolkien, somos Sub-criadores. Sendo assim, devemos entender que todas as nossas criações, assim como Platão, Aristóteles, Campbell, Girard e muitos outros já disseram antes de mim, são reflexos dos nossos desejos e anseios. Olhando de um ponto de vista mais teológico, nossas criações são reflexos de verdades.

Os monstros não existem como nos contos de fadas ou histórias de terror, mas o que sentimos quando estes aparecem sim é verdadeiro. Assim como muitos dos personagens de ficção também não existem na vida real, mas apontam para verdades reais, como Aragorn, Frodo e Gandalf, da célebre trilogia de O Senhor dos Anéis. Separados, cada um destes três personagens tem sua devida importância para o desenrolar da história, mas juntos apontam para uma personagem histórica, Cristo, que, segundo Lewis, foi o mito perfeito que se fez fato e interferiu na realidade, ou seja, a própria verdade.

Cada uma das personagens de Tolkien representa um ofício real do Cristo que libertou a humanidade. Enquanto Aragorn é a figura do Rei que guia seus súditos, Gandalf é a figura do profeta que exorta o povo e Frodo o servo fiel que dá a sua vida pelos seus amigos. Embora estas três personagens sejam fictícias, elas representam verdades, fazendo com que esse mundo não seja real, mas possível, pois dialoga com a realidade. A possibilidade destes mundos é o que faz com que nos apaixonemos por eles.

Não é por acaso que livros como Harry Potter, Nárnia, O Senhor dos Anéis, A História sem Fim e tantos outros façam tanto sucesso. Estas histórias mexem com os desejos mais íntimos do ser humano. Como diria Tolkien, elas despertam a desejabilidade, e é isso que as tornam reais. Não uma realidade material, mas uma realidade metafísica.

Onde a verdade e a mentira se fundem? No desejo do ser humano. Desejamos conhecer o Totalmente Outro de Karl Barth, o Logos do Evangelho de João, o grande Eu Sou de Abraão, Isaque e Jacó, o Deus da salvação de Davi e o Deus que virou a vida de Jó de cabeça para baixo.

Embora tenhamos as Escrituras Sagradas para nos guiar diante desta empreitada de conhecer o Deus que se revela, ainda temos a Imagem e Semelhança dele impressa em nós – ainda que agora embaçada devido a nossa catástrofe, a Queda –, para nos auxiliar nesta busca. Nós fomos criados para buscar a esse Deus que é ao mesmo tempo Totalmente Outro, mas também é totalmente o mesmo ontem, hoje e sempre. Nós buscamos constantemente conhecer o Deus desconhecido que se fez conhecer plenamente em Cristo, embora nós não consigamos entende-lo de forma plena.

A fantasia é nossa válvula de escape. Somos exilados em uma terra desconhecida esperando o dia em que voltaremos para nosso lar. Até lá, falaremos do que conhecemos e do que temos visto. Conhecemos o desconhecido e vimos o que ninguém mais viu. Somos reféns do paradoxo máximo da existência, que segundo Chesterton, é o próprio Cristianismo, o mito que se fez fato.

Um dia nossos contos de fadas não farão mais sentido, pois não precisaremos mais do reflexo para entender o todo. Não veremos mais como por um espelho. Um dia estaremos diante do Criador de todas as fantasias e de toda a realidade. Mas enquanto este dia não chega, continuaremos a contar histórias e subvertendo a realidade com a fantasia.

Maurício Avoletta Junior, 21. Bacharel em Teologia pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, estudante de filosofia e literatura (por conta própria); apaixonado por quadrinhos, cinema, música e Tolkien; escravo de Cristo, um pessimista em potencial e um futuro “seja o que Deus quiser”.

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3 comentários sobre “Entre a Fantasia e a Realidade

  1. Nas últimas páginas de Nárnia, Quando já estão junto de Aslam, os reis olham para seu antigo mundo e veem que tudo aquilo na verdade era uma sombra da verdadeira realidade que naquele momento eles iriam começar a usufruir. Esse final me fez chorar muito e me encheu de muita esperança. A fantasia também pode ser apenas uma sombra do que nosso Pai tem nos reservado, mas como CS Lewis disse nos comentários finais de Nárnia: Nós também precisamos disso.

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