A arte penal de colorir a cidade

O que é belo? O que é arte? O que é crime? Não foram poucas as vezes que me vi em discussões que partiam dessas perguntas, por isso percebi a necessidade de alguns breves pontos serem levantados, mas antes, queria falar sobre a cidade.

Nos encontros e plantios humanos ao longo da história foram se formando centros sociais, de convívio e comércio, que passaram a constituir a identidade dos indivíduos que nelas se encontravam. As cidades têm sua gênese nessa necessidade do homem de viver junto ao outro e se fazer nessa sociedade, mas é justamente daí que vêm os conflitos, pois o mal, sempre presente, nos faz querer tirar proveito do trabalho e da força do outro.

A sociedade moderna tem seus conflitos ainda mais acentuados pelas revoluções que levaram os indivíduos a conflitar com o outro para atingir seus interesses e poderes. Um exemplo histórico interessante para se avaliar no contexto brasileiro é o da corrida do ouro na Serra Pelada nos anos 80, que levou seres humanos a se degradarem, se matarem e se perderem em busca de uma fortuna que, para muitos, acabou antes mesmo que as garrafas de Bourbon secassem.

A cidades se tornaram os centros da busca pela fortuna, algumas foram se revelando ainda mais oportunas para isso e, por consequência, concentraram cada vez mais pessoas que ainda corriam atrás do ouro. Assim, chegamos às metrópoles com todos os seus vícios e virtudes. Assim, retornamos à questão da beleza, da arte e do crime.

A aglomeração de indivíduos trouxe a necessidade da verticalização das cidades, o que, ao longo do tempo, tornou tudo cada vez mais prático, rápido e, consequentemente, feio. São caixotes de linhas retas feitos de morada por pessoas que cada vez ficam mais próximas geograficamente e mais distantes nas pessoalidades, como retrata um grande poeta que denunciara a falta de amor em São Paulo, uma das maiores cidades da América Latina:

E as pessoas se olham e não se falam
Se esbarram na rua e se maltratam
Usam a desculpa de que nem cristo agradou
Falô, você vai querer mesmo se comparar com o senhor?

Criolo – Ainda há Tempo

Ainda na narrativa dos ditos do Criolo Doido, na bela canção Não Existe Amor em SP (2011), ele declara que em meio ao desamor, os grafites gritam. Vamos pensar: por que o grito se faz necessário em determinados contextos como no caso da cidade? Eu não curto muito gritos, tenho que ser sincero, mas quando muitas vozes degladeiam-se para se fazerem audíveis, então sim, o grito se faz necessário.

No entanto, quando o grito possui como conteúdo algo que desagrada, alguém vai se levantar contra. De duas uma: ou vai tentar gritar mais alto, ou promover alguma forma de calar o que grita. Para essa segunda alternativa é preciso força, pelo menos uma maior que a do que inicialmente recorreu ao grito.

Na cidade, os grafites gritam. Não faço a distinção – comum só no Brasil – entre grafite e pixação, para mim tudo é a mesma coisa, pixo, preza, grapixo, grafite, arte urbana, tanto faz o nome. Nelas eu consigo perceber uma diversidade gigantesca de gritos.

O grafite é um dos quatro elementos da cultura Hip-Hop (os outros são o mestre de cerimônias, DJ e o break). Essa é uma cultura fundamentalmente urbana e, para conhecer melhor sobre, eu recomendo os documentários Rubble Kings (2015) e a série documental Hip-Hop Evolution (2016), ambos disponíveis no catálogo do Netflix.

O Hip-Hop tem, desde sua origem, o poder de contestar a estrutura vigente e a subverter para dar voz ao oprimido que é invisibilizado na cidade. No entanto, por mais autêntico que isso seja, nem sempre corrobora com as regras vigentes que controlam o convívio social, por isso, incomoda, e muito, aos que conseguiram poder e fortuna na cidade.

Duas das cidades brasileiras em que a cultura Hip-Hop tem mais força, também são os lugares onde ela mais é reprimida. Em Belo Horizonte, desde que a Igrejinha da Pampulha foi pixada, o Estado iniciou uma caça aos pixadores que extrapolou, em muito, os limites do bom senso. Para mais informações sobre isso, recomendo essa matéria da Vice com um dos pixadores mais importantes da cidade, que ficou preso durante 8 meses por crimes que, até o momento, não lhe foram imputados (Vice sobre prisão do Goma).

Em São Paulo, o atual prefeito implantou uma campanha que denominou “Cidade Linda”. Com ela, o tal empresário, marketeiro e político está disponibilizando uma “bela” cor cinza para a cidade, que recentemente foi considerada pelo portal americano Huffington Post, a segunda melhor cidade do mundo para a street art, atrás apenas da capital Alemã.

Voltemos às perguntas inciais. Bem, não vou aqui tirar conclusões, sejam de cunho estético ou legal, pois não me considero competente o suficiente para concluir nada sobre isso. Só quero mesmo instigar uma possível reflexão sobre algo que tem sido “resolvido” de maneira limitada e pouco inteligente. A polis é lugar de conflitos, mas ainda é lugar de virtudes, e a beleza ainda caminha por aí, na arte ou não. Por isso, não a deixe passar por perto sem se permitir ser tomado pelo encanto de ter o que agradecer ao Eterno, afinal de contas a esperança está numa cidade com ruas de ouro e não numa pintada de cinza.

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