La La Land e a vaidade de querer o infinito

“O que seria da vida sem as coisas que não existem?” Assim provocava Antônio Abujamra a Eduardo Sterblich, um ator bobo vindo de um programa machista que pretensiosamente pretende interpretar Samuel Beckett para ser ovacionado como Paulo Autran por pessoas que nem mesmo a vida tem interesse, mas aos quais todos desejam ser comparados para que o viver possa ter cores de eternidade antes que acabe. Todo mundo quer a vaidade de Coelet, mesmo sabendo que ela é só vaidade.

Os nomes ditos acima são de homens que viveram, estrelaram sua arte em cena e morreram. A exceção é o jovem pretensioso, que para mim é um dos maiores talentos da dramaturgia brasileira, que pode brilhar tanto que nem mesmo os admiradores do Poderoso poderiam acreditar. Edu é sim capaz de fazer rir ao melhor estilo Buster Keaton, mais um que brilhou e morreu. Todos morrem, tudo é vaidade!

Damien Chazelle é mais um desses jovens que tenta fazer na vaidade o possível para revelar o que brilha mais que a vida. Já fizera isso antes, quando nos levou ao mar de dor de Whiplash (2014), obra de gozo dos amantes de jazz e de cinema (como esse vaidoso que aqui vos escreve). Agora Chazelle escreveu e dirigiu La La Land (2016) e as indicações ao Oscar já o elevaram às mesmas marcas de de Ben-Hur (1959) e Titanic (1997), além do recorde absoluto de prêmios no Globo de Ouro, mas tudo isso é vaidade.

O músico e a atriz, o menino e a menina, Mia (Emma Stone) e Sebastian (Ryan Gosling). É sobre eles o filme, não fujamos disso, mesmo quando nos distraímos com as inúmeras referências aos musicais da era de ouro de Hollywood. Também não é mais um filme de jazz do moço Chazelle, que joga toda sua paixão em nossa cara por meio da fala efusiva de Sebastian à Mia quando essa diz não gostar do estilo. Não se perca tentando lembrar o nome de John Legend quando você o vir passando pela tela, também não é mais um filme sobre a indústria da fama que se pretende às estatuetas douradas, isso tudo é vaidade.

La La Land é um musical para os que dizem não gostar do gênero, e pega de jeito os corações como num filme do Linklater. Pelo menos eu me senti assim. Digo que La La Land é antes de tudo um filme sobre duas pessoas porque nele vemos o encontro de todo um universo que o outro pode ser. Cada perspectiva é contemplada, a de Mia e a de Sebastian. Somos confrontados com tudo o que eles são, o que desejam ser, o que conseguem ser e o que poderiam ser, e assim vemos de novo o que atormenta a nós mesmos, a nossa própria vaidade.

Mesmo uma estrela na calçada da fama tem seu fim, tudo encontra o seu desfecho. Seja no olhar penetrante de uma grande atuação que te faz chorar, na virada final do improviso jazzístico que te leva ao aplauso, no adeus triste de quem se ama e não se pode ter ou na morte, tudo acaba. Mas na terra em que se sonha, a realidade do fim não é tão prazerosa quanto o viver o que não existe.

Em suma, saí da sala do cinema sem palavras, e quando veio a tentativa de falar, chorei. Chorei porque vi o muro pintado, porque vi um casal saltando pela noite, por ter visto o sorriso ao lado, chorei quando contemplei a beleza. Mas no fim só ficou uma coisa, a vaidade e tudo o mais que vem depois do fim. Porque o eterno… Esse nunca acaba!

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2 comentários sobre “La La Land e a vaidade de querer o infinito

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