Todo dia é dia de querer viver sem medo

Se tem um trem que me tira mais tempo do que deveria, é assistir aos monólogos e entrevistas do The Late Show with Stephen Colbert. Tá quase chegando ao nível de vício. Numa entrevista semana passada, Stephen perguntou ao Roy Wood Jr, que é negro e comediante, o que ele vai ensinar ao filho que acabou de nascer. Ele respondeu “a primeira coisa que vou ensinar é: sempre saia da loja com uma sacola”.

Stephen disse que isso, pra ele, dependia do quanto (e se) ele comprasse na loja, e Roy disse “não importa o que eu compre, sempre saio com uma sacola. Como um cara negro nesse país, as pessoas precisam saber que eu paguei por essas coisas, então preciso de uma sacola. Não só preciso de uma sacola, mas preciso da nota, e quero que grampeiem essa nota do lado de fora da sacola. Não importa o que eu compre, sempre saio com uma sacola, porque não quero perguntas do segurança”.

Roy continuou (com muito mais humor do que consigo transmitir aqui) ilustrando que, se ele estiver sem sacola na mão ao sair da loja e o segurança aborda-lo, ele pode tentar pegar o recibo no bolso de trás da calça, o segurança pode achar que ele está indo é pegar uma arma, e ele, o cara negro saindo da loja sem sacola na mão, pode até ser morto. Por ser um cara negro saindo da loja sem sacola na mão.

Por essa anedota acho que dá pra entender que o problema do racismo é sistemático, da mesma forma que muitas das opressões sofridas pelas mulheres. Não é sobre um segurança achar que discriminar outra pessoa pela cor da pele é uma coisa idiota. É sobre o cara negro poder sair da loja sem sacola numa boa. Enquanto isso não acontecer, todo negro vai temer um segurança, porque ele é um símbolo desse sistema.

Não é sobre você, amigo homem, ser o cara de quem mulheres não precisam sentir medo. É sobre ninguém precisar sentir. Enquanto isso não acontecer, toda mulher vai andar mais rápido quando vir você de longe numa rua vazia, porque você, um homem, por mais individualmente inofensivo que seja, é um símbolo desse sistema. O que dá pra fazer não é questionar o medo, é tentar ir mudando esses sistemas.

Dias como hoje têm que ajudar a lembrar disso. Flores e chocolate são legais, não precisa parar de distribuí-los em todo 8 de março. Mas viver sem esses medos, ah… dá pra imaginar?!

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s