A dor e o prazer que sentimos

Não faço muito segredo sobre o quanto sou fã do trabalho de Gus Van Sant e Richard Linklater. Poucas obras mexeram tanto comigo como Antes do Amanhecer (1995), com toda a sua sutileza em sintetizar a complexidade que é o encontro de um homem e uma mulher na caminhada da vida. Além dele, o filme Elefante (2003) me trouxe perguntas que muito da minha luta hoje passa por respondê-las. Gus e Richard são leitores de seu tempo, apresentadores do zeitgeist.

Perceber o tempo em que se vive não é fácil, preferimos os lamentos do passado e as ansiedades do futuro a ter que lidar com a única coisa que temos de concreto, que é o presente. Engraçado como em desenhos animados e outros filmes infantis é com um beliscão que se faz com que alguém perceba a realidade e isso faz todo sentido. A dor física te leva a perceber seu próprio corpo, a olhar para o lado e ver quem está ali para acudir, a perceber o ambiente ao redor, que pode ter sido o causador do ferimento. Sem a dor, pouco percebemos da realidade. Mas o lamentos e patologias em geral, são por dores que nem doem mais e por dores que poderíamos ter, mas nunca sentimos.

Assim como a dor, o gozo também te leva a uma percepção epidérmica do presente; as delícias e prazeres te fazem querer a eternidade em momentos contidos pelo relógio. Esse é o presente que todos querem. Assim nasce o presentismo do “aproveite o momento sem medir consequências, pois no fim de tudo é o prazer que interessa e o resto que se dane!”

A inconsequência é marca da juventude, o jovem que arrisca tudo para encontrar o máximo do prazer, afinal de contas ele pouco construiu para ter algo a perder, mas lembremos que é justamente na busca máxima pelo prazer que também acabamos enfrentando as maiores dores. Aí a sagacidade de olhar para o tempo nos filmes de Gus Van Sant e Richard Linklater, pois é na experiência da juventude que eles nos apresentam o tempo, revelando a experiência sem tentar se fechar em muitas conclusões.

Conclusões não são importantes quando ainda estamos no meio da jornada. As conclusões só cabem aos finais, do contrário nunca teremos um boa amplitude para enxergarmos mais longe, por isso não se precipite ao concluir nada sobre Moonlight (2016). Barry Jenkins faz um caminho de apresentação bem similar ao de Gus e Linklater, não só no protagonismo da juventude, mas a construção do roteiro nos remete a Boyhood (2014), a movimentação da câmera acompanha uma mesma tensão estilística que vemos em Elefante e por tudo isso e muito mais o filme é digno dos prêmios com os quais foi condecorado. Mas ainda assim não saia por aí dando títulos reducionistas para ele.

Quando vivemos o tempo que temos e fazemos nele o que temos que fazer da maneira mais autêntica e condizente com a nossa identidade, uma coisa vai se apresentar constantemente: a contradição. Nós estamos em construção constante e definições demais limitam a possibilidade de viver plenamente, por isso nosso compromisso não deve ser com nada além de tudo o que é verdadeiro e real, ainda que assim eu me contradiga.

 

Eu sou querido no céu, eu sou amado no inferno
Entre o errado e o certo prefiro ter os dois por perto
Eu sou a luz, sou a sombra, sou o perigo que ronda
Eu sou a arma da guerra, sou o mar e suas ondas
Ignorado por anjos, desabafei com demônios
Separei brigas dos 2, eu sou Deus, sou humano
Eu sou o luxo, sou lixo, eu sou o limpo e o sujo
Nem duas caras, nem máscaras, nem em cima do muro
Eu nadei contra a maré, chão quente, fui a pé
Passos descalço, eu sou Jó, sou Tomé
Trago amor trago a paz, tragos milagres e júbilo
Eu sou o equilíbrio, eu mato, roubo e destruo

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