Quem foi Fábio Ramos de Carvalho?

Entrevista cedida pelo portal Super Crente (siga  a página no face, no instagram e se inscreva no canal do youtube)

Quem foi Fábio Ramos de Carvalho?

   Há dez anos, em Cuba, morria Fábio Ramos de Carvalho, aos 41 anos, de infarto fulminante. Ele era fundador da Caverna de Adulão, uma igreja que surgiu com a visão de alcançar os grupos menos evangelizados do cenário urbano. Para celebrar seu legado a revista “Super Gospel” conversou com o pesquisador e seu amigo íntimo, Cornélio Magela, que conviveu com Fábio durante mais de 18 anos, desde quando o finado pastor se mudou para Belo Horizonte.

Magela é Pastor da Comunidade do Cordeiro, também em Belo Horizonte, formado em teologia pela Universidade Mckendonalzie e doutor em divindades pelo instituto Andrew Please DonJump. Atualmente é professor convidado de missiologia urbana no curso de teologia da universidade de Hogwarts (Grã-Bretanha).  Casado com a caribenha Chifô Nézzia com quem tem 2 filhos: Ednéia e Aldamézio.

Cornélio Magela acaba de lançar o Livro “Fábio Ramos de Carvalho: Um Precursor Missional”, Editora Crente Cult, no qual analisa a repercussão da vida desde memorável pastor.

 

SG – Porque tanta repercussão em torno do findado Pastor Fabio?

CM – Bem, essa resposta pode ser respondida de várias formas, mas vale dizer que ele era um cara a frente de seu tempo. Era o típico pastor-evangelísta e foi um grande exemplo em contextualização do evangelho.

SG – Como assim?

CM – Por exemplo, Fábio tinha um chamado especial para trabalhar com os grupos das Tribos Urbanas, que na época eram muito mais segmentados e dialogavam menos entre si.  Toda sua vivência missionária e eclesiológica se deu nesse contexto de tentar alcançar aquelas pessoas que já eram “vacinadas” contra o cristianismo. Ele falou a linguagem desse povo, contextualizou o Evangelho de uma forma muito madura para alcançar a contra cultura urbana.

SG – Então o Fábio Ramos de Carvalho foi o precursos dessas tendências de igrejas com prancha de surfe no pulpito e coisas afins? 

CM – Olha só, existe aí uma grande confusão sabe… Acho que a tendência do Fábio e Caverna de Adulão é bem diferente da Bola de Neve. Fábio era um calvinista, enviado à BH pela Presbiteriana Independente. Possuía  fortes influencias de sua experiência na Comunidade S8 (igreja que evangelizou os hippies a partir da década de 70)  e do movimento evangelical.  A Bola de Neve, por sua vez, tem raiz na igreja Renascer, possui influência do pentecostalismo e até do neo pentecostalismo. A abordagem em relação à cultura, eclesiologia e a liturgia também tem diferenças substanciais. Mas algo é importante dizer neste ponto; Fábio nutria um “saudável ecumenismo”, uma luta pela unidade na igreja evangélica a apesar de suas diferenças. Em outras palavras era um grande militante em prol de um “Cristianismo sinfônico”. Sabia dialogar e era convidado a pregar em todos os setores do protestantismo.

SG – Interessante… Mas não havia muitas igrejas que tinha preconceito e resistência à Caverna e a ele, devido a suas opções culturais? 

CM – Com certeza, existia muito! Mas isso que era legal no Fábio, ele nutria um grande amor por seus irmão na fé e entendia que Deus o tinha chamado para servi-los. Era nessa alteridade, nesse estranhamento, que Deus o usava para edificar a igreja levando-a a relativizar questões culturais que de fato são relativas e focar naquilo que realmente é normativo e essencial nas Escrituras. Ele não ficava “mendigando” a aprovação dos irmãos de outras igrejas, nem tão pouco comprava esse papo de que qualquer estranhamento entre irmãos é sinônimo de “escandalizar o próximo”. Fábio simplesmente os amava, se dispunha a ser instrumento para edificação do corpo e mantinha uma saudável humildade nessa relação.

SG – E qual foi sua maior contribuição de seu legado para a igreja Brasileira?

CM – Penso que o Fábio foi pioneiro em muita coisa sabe, nesse dialogo com a cultura. Desde o começo dos anos 90 ele lidava com um público que era extremamente avesso ao Evangelho e a Igreja, isso o ensinou a enxergar as vivências cristã com os “olhos dos de fora”. Ele lidou com essa questão muito antes do movimento “missional” ou a da já “submersa” igreja emergente desembarcarem em terras tupiniquins. Tudo isso acontecia de uma forma muito orgânica, simplesmente porque o Pr Fábio fazia questão de se relacionar com quem era de fora da igreja. Talvez essa seja a grande contribuição de seu ministério, ele era um evangelista que amava os “de fora”. Lesslie Newbigin o amaria.

 SG – E ele não deixou nada escrito?

CM – Pena que apesar de muitas palestra e seminários sobre o tema ele não escreveu muito sobre essa questões.

 SG – O que ele gostava de ler?

CM – Era um grande fã da literatura evangelical do século XX. Sempre me emprestava livos do John Stott, C.S. Lewis, Francis Schaeffer, J.I Packer. Além de Zygmunt Bauman. Gostava da missão integral, da revista ultimato, do Pacto de Lausane. Tinha o costume de ler Paul Tillich e outros menos convencionais também, mas definitivamente era um cara ortodoxo na teologia e vanguardista na cultura.

 SG – O Que ele gostava de ouvir?

CM – Cara, ele era dos róqui né, (risos). Gostava de quase tudo que era mais pesado, dos rock´s clássicos ao metal extremo. Não curtia muito metal melódico. De louvor ele escutava, quase que exclusivamente, a psicodélica Comunidade S8. De música brasileira ele gostava da MPB psicodélica de 14 Bis, Lô Borges e Flávio Venturini. E Nos seus últimos anos estava mais na onda do hardcore.

 SG – Para além desta boa referência, quais eram seus defeito?

CM – Defeito ele tinha aos montes (risos). Não gostava muito de ordem, de disciplina. As vezes era meio insensível, ou mesmo ríspido, explosivo. Era um cara que tinha dificuldade de expressar seus sentimentos, inclusive sua esposa o viu chorar apenas 2 vezes.

SG – Sério isso? 

CM – Sérissimo, era um cara bem avesso a pieguices. Mas, a galera testemunhou outros momentos de emoção, como por exemplo quando fizeram o primeiro impacto evangelístico, na esotérica cidade de Alto Paraíso, em 2005.  Na oração de encerramento do trabalho ele começou a chorar copiosamente, até hoje as pessoas que estavam lá se perguntam o que será que ele sentiu ou Deus lhe “mostrou”.

SG – Como você o imaginaria hoje aos 51 anos de idade?

CM – Bicho que pergunta difícil (risos). Eu só consigo lembrar dele falando com aquele sotaque carioca “Galera, temox que extar atentox para não cair nos sofixmas desta geração póx morderna”. Acho que ele seria um cara muito equilibrado, um Tim Keller mais maluco, com doses de Henry Nouwen e a ânsia missionária de um David Pierce. Provavelmente, ele teria a compaixão e a sabedoria para dialogar com todos, mas peito para não negar as verdades cristãs quando estas forem politicamente incorretas segundo a cultura atual.

SG – Como ele se portaria nas mídias sociais?

CM – Putz, você não facilita pra mim hein velho (risos). Pois bem, ele morreu nos anos dourados do ORKUT e na época gostava de uns barracos (mais risos). Mas não dá pra saber como seria sua posição na atual conjuntura das redes sociais. Com certeza ia ter muuuita preguiça de tendência de usar o x no lugar do “a” ou do “o”.  Provavelmente gostaria muito de refletir e discuti o impacto dessas redes sobre nossas vidas.

SG – Alguma ultima palavra pra fecharmos nossa entrevista?

CM – Ah sim!! Ele odiava entrevista, compartilhava com C.S. Lewis a opinião de que os jornalistas tende a ser muito superficiais e provavelmente iria te zuar  te chamando de “peidado da cabeça” ou “lezado”. Nunca vi um adolescente que era mais zueiro do que aquele quarentão, pra mim um grande exemplo de como a ludicidade devia estar mais presente em nossas vidas e ministérios e isso tem tudo a ver com nossos tempos.

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5 comentários sobre “Quem foi Fábio Ramos de Carvalho?

  1. Parece que eu estava ouvindo ele falar quando o entrevistado citou a frase de como ele falaria hoje. Um exemplo de pastor/evangelista que marcou toda nossa geração.

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