Mulher Maravilha, um filme sobre graça

Patty Jenkins quis fazer Mulher Maravilha logo depois de seu primeiro filme, Monster – Desejo Assassino (2003), que foi bem nas bilheterias e nas críticas. Se realizado naquela época, talvez Sandra Bullock ou Catherine Zeta-Jones figurariam como Diana, a princesa de Temiscira. Jenkins foi cotada para o projeto de levar a heroína às telas em 2008, mas recusou devido à gravidez. Ela estava na direção de Thor: O Mundo Sombrio (2011), mas a história que queria contar não era a mesma que a Marvel queria, e decidiu sair do projeto, por não ser “a pessoa certa para fazer um ótimo Thor com a história que o estúdio queria fazer”.

A diretora seguiu com outros projetos, e com a expansão do universo DC no cinema, Mulher Maravilha voltou a ser uma opção. O estúdio queria uma mulher na direção, e a história que eles queriam contar, da origem da heroína, era a mesma que Jenkins queria. E é essa história que chega aos cinemas em Mulher Maravilha (2017). Foi um longo caminho até aqui para Jenkins e também para muitos que queriam ver uma protagonista feminina em meio à nova leva de filmes de heróis.

Convivendo com as amazonas, a pequena princesa Diana cresce desejando participar da ação na ilha de Temiscira. A ilha, por sinal, deve ser algo como o ideal do Vale Verde pelo qual Furiosa procurava em Mad Max – Estrada da Fúria (2015). O sotaque da israelense Gal Gadot, Mulher Maravilha da vez, foi o que guiou o sotaque das amazonas, ou o sotaque próprio das amazonas que caiu como uma luva para Gal? Se o sotaque a ajudou a conquistar o papel, graças a Deus por ele. A atriz entrega força, inocência, dúvida e compaixão na medida certa. E nessa mistura toda está um poder bem ordinário do qual muitos super-heróis carecem: empatia.

Diana logo deixa Temiscira para colocar seu treinamento em prática em um mundo assolado pela I Guerra Mundial. Os dias ensolarados e a sociedade na qual mulheres eram as protagonistas ficam para trás. Mas ser luz é sobre ser presente onde havia escuridão, certo? E as imagens da presença de uma mulher na linha de frente naquela época – em Londres e nas trincheiras – dizem muito mais do que o ideal de “empoderamento” que Temiscira representa.

Decidida de que é o Deus da Guerra que está impulsionando o conflito, a princesa faz de derrotar Ares sua missão. Mal sabia ela que, antes de qualquer possível influência externa, humanos são egoístas, destrutivos e vingativos por natureza. Mas, como ela aprende com o espião norte-americano Steve Trevor, seu guia por nossa civilização, humanos também podem ser generosos, cuidadosos e altruístas.

Frente ao dilema de Diana, de querer salvar o mundo, mas não saber se seus habitantes mereciam salvação, Steve a lembra que amor não é sobre merecimento, é sobre suas convicções, sobre quem você é. Uma heroína motivada pelo amor. Não tem coisa mais empática que essa. E aí faz todo sentido que esse seja um “filme de herói” com protagonista feminina, já que, peço licença para dizer, também não tem coisa mais “mulherzinha” que essa.

Como o crítico Ryan McGee bem pontuou, Mulher Maravilha é um ótimo exemplo de como um herói não precisa ser moralmente instável ou emocionalmente torturado para ser atrativo. Com sua inocência nada ingênua, a princesa Diana, que consegue ver beleza mesmo em meio à dor, se transforma numa Diana Prince que mesmo em meio à sua própria dor consegue encontrar no amor, que não depende do seu alvo, a razão para prosseguir. E a graça, ela é mesmo atrativa.

*Publicado originalmente no blog Ultimato Jovem

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s