A exposição Queermuseu, a arte do nosso tempo e a resposta cristã

A repercussão nas redes sociais sobre a exposição Queermuseu foi gigantesca. Eu nem saberia da existência da mostra não fosse o frenesi causado. Sem ao menos visitá-la, muitos já davam um diagnóstico sobre o assunto: apologias à perversidade era o que se lia através das obras não acuradas.

O que mais se via eram imagens de cartões quebrados do banco responsável pela exibição, como expressão de indignação por pessoas que se sentiram desrespeitadas.  Curiosamente, uma forma expressiva que gerou uma imagem estética: fotografias que poderiam ser exibidas em um “museu da indignação”. Brincadeiras à parte, a ideia é de que tudo pode virar arte.

Até porque arte é a primeira forma como o homem se manifestou. Antes da escrita já existia “arte”. Arte já foi pintura de boi na parede (ritual de caça), um registro de como era a sociedade do Paleolítico. Em outros momentos, expressões de arte eram marcações de colheita, templos religiosos, tapetes, arquitetura e etc.

Artes e seus meios

“A arte é o reflexo do social”. Essa frase veio de um professor de História da Arte, e a guardo para a vida. A arte perpassa a história sob vários prismas, atendendo a demanda da época. Moralidade ou a falta dela não são fatores determinantes do que é ou não é arte. Existe arte moral, existe arte imoral. Arte é expressão humana; pode ser bela, mas também pode ser feia e degenerada.

Ela é ilustração do seu tempo. Se o tempo é de paz, existe uma arte que corresponde a esse adjetivo. Se são tempos de tensão, haverá uma arte com características correspondentes a elementos tensos, como a arte retratada no pós-guerra na Europa, especialmente na Alemanha. O que um artista em meio a uma Europa destruída teria para retratar se ele próprio estava tão devastado quanto seu meio? Harmonia e proporção? A não ser que ele fosse um cristão cheio de fé e produzisse uma arte que retratasse esperança; mas não podemos esperar isso de quem não tem essa convicção. A boca fala do que está cheio o coração, e a arte é o coração do artista.

Arte como provocação

Mas o que ocorreu com a Queermuseu foi um embate acirrado de pessoas ávidas por um veredito rápido, sem análise, baseado na intolerância e em informações picadas, de ambos os lados. Um reflexo do que vivemos hoje. Obviamente estamos num tempo de polarização de ideias. Uma arte nesse ambiente tem como características ser conflituosa, provocativa e panfletária, querendo os holofotes para o seu lado da moeda, que existirá à sombra da reação do adversário.

É um tempo de retroalimentação polarizada, um ambiente onde perde-se a sensibilidade de acurar. Um alvoroço e um imediatismo de vereditos, e fico pensando: “puxa, mas não deu tempo de entender a coisa!”.

O status da Queermuseu

Queermuseu é uma exposição que talvez contasse com um público orgânico baixíssimo, mas que se coloca em evidência por conta das reações de oposição, e ganha pra si o status de refém de preconceito.

Os tempos são difíceis e quem produz arte, na grande maioria, não são pessoas cristãs. Não podemos cobrar de quem não tem a nossa fé que nos entreguem algo que não têm. Temos esperança, elas não. Penso que essa é uma oportunidade para nós cristãos ouvirmos o que a sociedade secular está clamando, para poder elaborar respostas sábias e eficazes para esse mundo.

As demandas de nosso tempo

Numa sociedade individualista e sem amor, as reações são as mais variadas, seja nas questões de gênero ou em outras formas de busca pela identidade. Pessoas querem ser aceitas, amadas, acolhidas. Sempre que me deparo com essas situações de diferenças, me vem à mente a conversa de Jesus com a mulher samaritana. Sem nada impor de início, sem ser taxativo, ele cria um ambiente favorável para fazer sua revelação como a fonte da vida.

Precisamos aprender a agir assim. Estamos tão ridicularizados que nosso adversário real já não precisa mais ser criativo para nos afrontar. Nossas reações estão tão óbvias e maçantes que já são esperadas. Enquanto a avant gard vocifera, a resposta conservadora quer fazer juízo e condenação.

Qual a saída, então?

É legítimo que fiquemos ofendidos, somos frágeis, mas a busca pelo direito de não sermos ultrajados deve ser perpassada pela misericórdia. Não proponho uma passividade expectadora diante da vida, mas sim uma reflexão mais inteligente, sábia, precedida de oração, orientada pelo Espírito Santo. Uma visão acurada, cuidadosa para ser edificante, para quebrar essa guerrinha gratuita de moralidade versus perversidade.

Quando fariseus conversavam entre eles, planejando abordar Jesus e deixá-lo sem saída, sempre tinham em mente duas reações possíveis e tinham certeza que Jesus ia escolher uma delas. Mas Jesus sempre escolhia um novo caminho, que deixava os fariseus perplexos, sem usar da mesma fórmula deles. Porque não transcendemos as polaridades, então?

A arte desta época, como está sendo produzida, pode ser uma oportunidade para abrir nossos olhos para os problemas contemporâneos e buscar lidar com responsabilidade, amor e sabedoria. Somos responsáveis pela redenção da cultura, que não será alcançada jogando um balde de moralismo em cima de tudo, mas com oração para que Deus prepare o terreno, os corações, para que possamos falar do Seu amor.

Rafaela Senfft é artista plástica formada pela Escola Guignard/UEMG, onde é professora de História da Arte Ocidental no curso de extensão. É membro de CIVA (Christian in Visual Arts).

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